domingo, novembro 23, 2008

DONZELA GUERREIRA¹

A indiazinha acordou no meio da noite, com o luar refletido em seu rosto; encantada, saiu da oca, e sob a sua cabeça, caiu uma chuva de estrelas pequeninas que começaram a tocar uma canção tão familiar que fazia tumtum em seu coração. Olhou para o céu, e viu outras tantas estrelas tocando no vai e vem musical daquele mar da noite que batia ondas sonoras em seu peito. A lua, que a havia acordado, iluminava o palco, onde a indiazinha dançava e as estrelas cantavam a mais bela das canções.

No céu não havia distinção; todas as estrelas tocavam em comunhão, e mesmo que para a indiazinha Surya, todas elas, de longe, parecessem iguais, bastava observar um pouco mais, para ela perceber que cada uma tinha um ritmo, cada uma tinha sua função musical naquela apresentação celeste: Havia estrelas que tocavam tambor, estrelas que tocavam harpas; havia estrelas que tocavam flautas, estrelas que tocavam violão; outras que tocavam violino e tinha até estrelas que tocavam solos de guitarra; todos os instrumentos em união para tocar a canção do amor verdadeiro.

Surya queria cantar, mas pensava não ter voz tão bonita que pudesse acompanhar aquele coral de estrelas cadentes ao seu redor; queria tocar, mas não tinha o dom dos instrumentos; tudo o que ela sabia fazer era bailar e bailando, completou o show das estrelas, contribuindo para o grande espetáculo da natureza, sem saber que ela também era estrela que se fez gente para brilhar na terra, mesmo feita de barro; e o deuses que eram um e ao mesmo tempo tantos, brincavam de esconde-esconde em suas tranças que balançavam ao sabor dos seus movimentos.

Os outros índios, que estavam todos dormindo, despertaram com o perfume do divino que se espalhou por toda a aldeia; fragrância sutil e intensa que trouxe suas almas de volta ao corpo e fez com que cada um deles saísse de suas casas com seus maracás em mãos para se juntar a festa.

Surya não acreditou quando viu toda a sua tribo dançando com ela e tocando com as estrelas. Logo, toda a floresta entrou em festa, e até mesmo os animais diurnos se uniram com os noturnos, para piar e rosnar o canto da natureza. A indiazinha recebeu todos com um grande sorriso que refletia uma lua magnânima, tão cheia de alegria, que se multiplicava no espelho do lago, na risada do riacho, nos olhos de cada bicho e índio, nas folhas das árvores e no coração de todos os seres da terra, mesmo aqueles que não estavam na floresta, mas em sintonia, bailavam em corpos celestes nos quatro cantos da terra.



Frank Oliveira
23 de novembro de 2008
Texto escrito durante a apresentação musical do Grupo Anima no espaço Cachuera, em Perdizes, São Paulo.

¹ Donzela Guerreira é o nome do novo espetáculo do grupo ANIMA – Musica Mundana Humana et Instrumentalis. “A música do Grupo ANIMA é o reflexo das estreitas afinidades existentes entre a música realizada pelas sociedades brasileiras afastadas do processo de industrialização, as chamadas sociedades tradicionais, e entre o legado escrito da música da Idade Média, da Renascença e do Barroco europeus.”
Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho desse grupo maravilhoso:
http://www.animamusica.art.br/index_br.html
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