segunda-feira, outubro 20, 2008

TUDO É O QUE É ( Reflexões sobre o que ocorreu em Santo André)

Escrevo essas notas em folha em branco, enquanto ouço um CD da Constance Demby que lembra cantos angelicais. Não sou cristão, mas a melodia que evoca a presença dos anjos transborda meu coração de êxtase e minha mente, feito barquinho, vai navegando pelo sorriso de Cristo, que surge como se fosse um porto seguro no meio do mar turbulento.

- Ás vezes, eu tenho medo, Senhor - eu digo, mas ele nada diz – então lembro que tudo é perfeito, mas para que essa lembrança retorne, sei que preciso me conectar com a poesia, com a música e com a arte do sorriso, daí tudo fica bem mais bonito - eu digo, mas ele continua sorrindo, na certa, por eu ter criado e dado uma solução a minha lamentação no mesmo parágrafo ou por saber que estou falando tudo isso da boca para fora, pois ainda continuo com medo.

Saio da sala e vou para o quarto. Como moro no centro, basta abrir os olhos para ver o mar turbulento, além da janela, com os seus carros gritando, os prédios se contorcendo em gente mal morada e sinto vontade de ficar em minha casa-templo e completamente me isolar.

- A quem você engana? – diz o vento que bate em minha cara com palavras frias de primavera inverno - Seria tão fácil, não é? Morar no Tibet, viver só de oração. Estar enclausurado, não ter nenhum contato com essa população. Seria tão mais fácil não correr risco de ser assaltado, ser morto ou seqüestrado, ou ter alguém querido levado da vida por um desequilibrado... Seria tão mais fácil. A quem você engana?

Volto para a sala, o discurso do vento não ajudou, só piorou a minha sensação de saudade de algum lugar onde as pessoas não briguem por nada. A música continua tocando, não a ouço direito, estou ocupado com os meus pensamentos de desolado em terra estrangeira. Eu sou amor, não gosto de ver gente vestida de ódio. Eu sou luz, a escuridão me deprime e corrói a minha vontade de estar aqui.

Olho para Jesus e peço ajuda, quero ter esperança que tudo se resolverá, que um mundo melhor nascerá amanhã, sem violência, sem manchete explodindo em sangue na camisa, na vista, e em todo lugar. Ele continua sorrindo, mas fala pela música que entra pouco a pouco no meu peito, finalmente me tocando e limpando todas as janelas que foram abertas pelos jornais, revistas, rádio e toda sorte de mídia que polui o ar com o sensacionalismo da morte do vizinho.

A música e Jesus me dizem: “tudo é o que é”.

Estou sujo! Sujo de lamentações, reclamações, pessimista não com os fatos da minha vida, mas com o que querem que eu permita que tome conta de meus pensamentos. Já passei por isso antes, deveria ter aprendido, mas uso a desculpa de não ficar alienado, sem notícias, para abrir a porta da sintonia e acabo com a lama em minhas pegadas e com o lixo em meus escritos.

Tudo é o que é!

A música me limpa, vai dissolvendo lentamente o que deixei sujar, quando estive dormindo, achando que o que aconteceu com o vizinho é culpa do mundo em que vivo. Não existe culpado! Tudo é o que é; da maneira que precisa ser feito, da maneira que é. A grande pergunta, não é onde estava Deus que deixou tudo isso ter acontecido, e sim, faria eu, o mesmo destino? Minhas mãos seriam capazes de conduzir o que tinha que ser feito? Teria eu a fraqueza de ser o agente de tanta maldade?

Não! Mas essa resposta negativa, não faz com eu me sinta melhor do que esse pobre coitado que foi a força por trás do assassinato da menina do ABC que já tinha dia marcado. Nada disso. Ele não é um monstro, ele é apenas humano, sujeito a certas ondas que fluem pelo mundo e que canalizamos para o lado escuro da nossa alma. Somos todos farinha do mesmo saco. Sujeitos a todo tipo de sintonia e descontrole de emoção. Somos todos algozes e vítimas das ilusões que vedam as nossas vistas e amarram as nossas mãos. Somos todos iguais e se eu não sou capaz de cometer algum delito que envolva prejudicar o meu vizinho; não há nada do que se orgulhar disso. Na bíblia, a qual respeito, mas não considero ser o único livro sagrado (todos os livros o são), há uma passagem que diz “orai e vigiai". Nada a ver com a imagem pecaminosa e adulterada do diabo, mas tudo a ver com o que deixamos guiar as nossas emoções, com as ondas que sintonizamos em nossos corações, e com as sombras que por vezes, incorporamos; sombra esta que tem pouco do coletivo e muito de nós mesmos.

Tudo é o que é. A diferença está no que deixamos dentro da nossa casa morar...

Vou deixando a música me limpar. Cada onda sonora vai envolvendo partes do meu corpo, girando ao redor da minha aura. Cada nota tocada vai pouco a pouco limpando a minha casa, me levando a um estado de leveza, trazendo de volta a minha lucidez, a minha consciência, de que não há lugar melhor no mundo para eu estar, do que aqui mesmo; pois foi aqui que vim parar e é essa estrada que preciso agora caminhar, mas com cuidado para que eu não confunda as pedras com a própria trilha da vida.

Há muita coisa boa a ser vivida e espero sempre contar com a música, com a arte, com a poesia e com uma little help divina, para me dar forças, luz e sobriedade para entender que tudo é perfeito, e que depois da tempestade, o sol sempre volta a ocupar o seu lugar, no seu reino.


Notas: o CD da Constance Demby que eu escutava é "O Faces of the Christ". Trilha sonora de um documentário de mesmo nome. Para mais informações sobre a cantora:
http://www.constancedemby.com/

Um comentário:

direitinho disse...

As sua preocupações são iguais às minhas e certamante de muitas pessoas. Vivê-las faz parte do nosso dia a dia.
Sou católico e acredito que Jesus não morreu por nada. Nos momentos mais conturbados tambem falo com Ele e muitos dias me responde com Silêncio.
Certamente Ele quer que eu faça melhor todos os dias e consiga uma vida de perfeição.

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