domingo, outubro 26, 2008

A SEMANA ( Crônicas Perdidas)

NO ÔNIBUS

O ônibus cheio fede, transpira, sinto falta do meu carro, mas é dia de rodízio em São Paulo, e utilizo o transporte público para ir trabalhar; preciso agüentar o aperto, preciso agüentar o cotovelo em meu rosto, a mochila nas costas do rapaz, que acerta pancada em quem passa, que acerta pancada em que está sentado, toda vez que ele se mexe, e muda a música que ecoa rave de seus ouvidos.

O ônibus é velho, as pessoas são rostos sem face. Se eu pudesse, tinha vindo caminhando. Se eu pudesse, desceria, mas do que adiantaria, se o relógio já me diz que estou atrasado e meu chefe não vai compreender que passei quarenta minutos no ponto, e que o motorista parou o ônibus por mais cinco, para que o cobrador
comprasse café e jornal. Bebida quente e informação são sempre uma boa pedida, até ai tudo normal, mas e o relógio com isso? E o meu compromisso?

Finalmente sento, mas uma senhora aparece e por um momento, juro, só por um momento, pensei em fingir que dormia, mas a consciência é madrasta, não deixou e a mulher se sentou, sem nem ao menos agradecer o meu gesto, sem nem ao menos se oferecer para segurar meus pertences.

Sigo em pé entre um sujeito fedendo a cigarro e uma mulher gritando no celular. Uma outra come algo, cujo cheiro chega até as minhas entranhas; um outro sujeito grita para cada mulher que vê na rua: pelo visto e pelo sotaque, acabou de chegar à cidade; e é meu conterrâneo. Quero sair dali, quero respirar, quero sumir, mas ainda
faltam muitas ruas, avenidas e alguns bairros para o fim da minha jornada.

"O que eu fiz para merecer isso?" pergunto a outro sujeito dormindo, cuja cabeça bate-bate no vidro, bate-bate na janela; e ele roncando me responde: "E eu que todo dia passo por isso, meu caro poeta!"


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CATARSE

Leio o jornal do passageiro mais a frente, e novamente, notícias sobre o crime de Santo André...

Um preto-velho ao meu lado, diz assim, esse algo:

" Outra catarse, outro crime, outra chance de romperem o padrão, de não sintonizarem com a maldade, de não desejarem o pior para o outro, outra chance de terem mais compaixão...

Outra catarse, outra decepção. Quantas catarses serão necessárias para moldar o espírito dessa nação?"

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BEM E MAL: LÁ DE CIMA É TUDO IGUAL

Pego o lápis e rabisco algo assim parecido:

" A mesma intensidade tem as ondas do mau e as ondas do bem; pois tudo é equilíbrio, tudo vai e tudo vem;

Todas as forças trabalham para a construção da nossa manifestação nessa dimensão;

Todos nós somos vitimas e algozes, pois há diversas vozes ecoando em nossa mente e que se juntam com as ondas da sintonia; por isso é preciso discernimento e alegria;

É preciso ter compaixão na mente e no coração, principalmente quando vemos a nossa frente o rosto do outro acusado e o rosto do outro acusante, pois é nesse instante que colocamos em prática, tudo aquilo que aprendemos na escola; toda a teoria da sala de aula que não serve para nada, se não usarmos nessa hora;

Caros amigos tenham compaixão pelo seu irmão que cair; pois se amanhã, de você, algo nefasto também sair, compaixão será o seu retorno, compaixão terá o seu irmão"

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Que semana mais sem graça, bendita inspiração!

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