quarta-feira, outubro 29, 2008

A PEDRA DO SAPO

Depois da chuva que caiu ontem á tarde, enquanto eu atravessava a rua da faculdade; notei um sapinho assustado, com olhos arregalados feito faróis que iluminavam um bueiro, assistindo o mundo dos humanos lá fora.

O sapo curioso me curiava, enquanto o menino escritor curiava o sapo lá dentro; menino surpreendido, pois lembrava nunca ter visto, na cidade grande, sapo algum; o contrário do rio de sapos que invadia as ruas da Paraíba, quando eu morava por lá.

Em Cajazeiras, a cidade que me adotou e me assistiu virar gente, a seca reinava o ano inteiro, mas quando chovia, caia torrentes de lágrimas por horas, por dias. Potes eram cheios, vales secos criavam vida, as vacas magras ruminavam de felicidade ao ver o pasto vasto, e os sapos, pulavam de alegria, ouvindo o canto dos pássaros. As meninas corriam com medo dos cururus, das pererecas, dos sapinhos miúdos, dos sapinhos sapecas que ousavam invadir casas, mesas e pular em cima das carecas dos vovôs que dormiam nas calçadas em suas cadeiras de balanço.

Em meio a esse “Pantanal Nordestino”, havia também um sapo gigante vigiando a Rua Luis Paulo Silva. Era um sapo de pedra, em rochas dispersas de tal forma que escultor humano nenhum conseguiria reproduzir. Quando fui morar com os meus avós na Paraíba; mas que a Montanha do Cristo ou Açude Grande; a Pedra do Sapo era o que havia de mais fascinante e atraente na cidade.

Toda vez que eu me sentia triste ou com saudade da minha mãe, que estava batalhando para recomeçar a vida em São Paulo, eu subia as rochas para conversar com o Sapo Rei. Lembro que ele sabia muito sobre o mundo ( vai ver, de tanto observar ali de cima) e ele dizia para eu ter paciência, pois logo logo, minha mãe teria condições de reunir todos os seus filhos em São Paulo e a Paraíba seria apenas uma lembrança, um nostálgico cenário de meus escritos e devaneios.

Não acreditava muito naquilo, afinal Cajazeiras me parecia durar para sempre; mas respeitava a opinião do Sapo Rei. Conversávamos por horas, até ouvir a minha Vó lá da rua embaixo, começar a gritar:

- Desce já daí, Neguinho!!! Se você cair daí, além de se arrebentar todo, vai ainda levar uma surra.

Não cai nem levei surra; minha Vó com o tempo compreendeu que as visitas a Pedra do Sapo, deixava aquele neguinho rebelde mais tranqüilo. E de certa forma, jamais esqueci a minha terapia na Pedra dos Sapos, e aquela noite, ao ver o sapinho curioso, imaginei por um instante, que talvez ele tivesse sido enviado para descobrir como o Neguinho adulto estava indo. Contudo, há tempos deixei essas coisas de criança de lado, afinal, um sapo é apenas um sapo, mesmo quando ele trabalha para o Rei dos sapos.

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