sexta-feira, outubro 03, 2008

"A palavra ficou presa na língua, poderia ter se tornado poesia, prosa escrita; mas acabou esgotada na tentativa frustrada de expressar oralmente o inenarrável."

"Espera, molda, melhora, cuida da tua obra!
Enxuga, arruma, clareia, perfuma com lucidez as suas certezas."

Even - Setembro 2008


Folha Branca, Tinta e Criação


É meia-noite, não tenho sono; mas tenho fome, fome de escrita; os alimentos respiram aliviados, quando eu abro a geladeira e pego uma garrafa d’água, eles me olham com surpresa, mas sabem que não correm perigo.

Mato a sede, ignoro a TV e olho para a folha virgem, só aguardando meu toque de amor. Saúdo a minha musa, e ela brilha toda oferecida, quer se transformar em palavra corrida; sorrio, seguro a tinta e logo estamos envolvidos, pintor e tela, amante e amigo, palavras mágicas surgindo do nada, magia em criação com letras pipocando aqui e agora. Gozo literário…

Em êxtase suspiro: mais um poema está pronto. A folha cansada respira aliviada; consumido pelo amor, abro a janela em busca de ar e vejo o vento brincando com as estrelas.

Que poema lindo acabei de escrever, suspiro ao vento noturno, mas ele não parece estar convencido da minha obra prima e sopra de volta:

“Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera*”

Vento danado e esperto, eu não sabia que você lia João Cabral de Melo Neto.

Nota do autor:

* Trecho do poema “Psicologia da composição” do poeta João Cabral de Melo Neto, autor do clássico: Morte e Vida, Severina. Leia o poema completo abaixo:

Psicologia da composição

I

Saio do meu poema
como quem lava as mãos.
Algumas conchas tornaram-se,
que o sol da atenção
cristalizou; alguma palavra
que desabrochei, como a um pássaro.
Talvez alguma concha
dessas (ou pássaro) lembre,
côncava, o corpo do gesto
extinto que o ar já preencheu;
talvez como a camisa
vazia, que despi.

II
Esta folha branca
me proscreve o sonho,
me incita ao verso
nítido e preciso.
Eu me refugio
nesta praia pura
onde nada existe
em que a noite pouse.
Como não há noite
cessa toda fonte;
como não há fonte
cessa toda fuga;
como não há fuga
nada lembra o fluir
de meu tempo, ao vento
que nele sopra o tempo.

III

Neste papel
pode teu sal
virar cinza;
pode o limão
virar pedra;
o sol da pele,
o trigo do corpo
virar cinza.
(Teme, por isso,
a jovem manhã
sobre as flores
da véspera.)
Neste papel
logo fenecem
as roxas, mornas
flores morais;
todas as fluidas
flores da pressa;
todas as úmidas
flores do sonho.
(Espera, por isso,
que a jovem manhã
te venha revelar
as flores da véspera.)

IV

O poema, com seus cavalos,
quer explodir
teu tempo claro: romper
seu branco frio, seu cimento
mudo e fresco.
(O descuido ficara aberto
de par em par;
um sonho passou, deixando
fiapos, logo árvores instantâneas
coagulando a preguiça.)

V

Vivo com certas palavras,
abelhas domésticas.
Do dia aberto
(branco guarda-sol)
esses lúcidos fusos retiram
o fio do mel
(do dia que abriu
também como flor)
que na noite
(poço onde vai tombar
a aérea flor)
persistirá: louro
sabor, e ácido,
contra o açúcar do podre.

VI

Não a forma encontrada
como uma concha, perdida
nos frouxos areais
como cabelos;
não a forma obtida
em lance santo ou raro,
tiro nas lebres de vidro
do invisível;
mas a forma atingida
como a ponta do novelo
que a atenção, lenta,
desenrola.,
aranha; como o mais extremo
desse fio frágil, que se rompe
ao peso, sempre, das mãos
enormes.

VII

É mineral o papel
onde escrever
o verso; o verso
que é possível não fazer.
São minerais
as flores e as plantas,
as frutas, os bichos
quando em estado de palavra.
É mineral
A linha do horizonte,
nossos nomes, essas coisas
feitas de palavras.
É mineral, por fim,
qualquer livro:
que é mineral a palavra
escrita, a fria natureza
da palavra escrita.

VIII

Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
(A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!
Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.)
Cultivar o deserto
como um pomar às avessas:
então, nada mais
destila; evapora;
onde foi maçã
resta uma fome;
onde foi palavra
(povos ou touros
contidos) resta a severa
forma do vazio.

João Cabral de Melo Neto
(1920-1999)

Mais sobre João Cabral de Melo Neto em
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jo%C3%A3o_Cabral_de_Melo_Neto

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