sexta-feira, outubro 03, 2008

MÃE DA OCA

Com olhos curiosos, minha vó nos olhava. Seus olhos diziam coisas que a boca não revelava, enquanto minha irmã e eu, falávamos sobre espiritualidade, deuses e deusas. A conversa seguia animada, maninha e eu falando, vó escutando e minha mãe massageando a farinha de mandioca. Tarde agradável na casa da Dona Graça, no já tradicional Café com Tapioca. Eu sabia que minha vó diria algo a qualquer instante, só não esperava que fosse algo tão surreal:

- Vocês são muito sabidos! – disse ela com o seu tom de voz nordestino e a sabedoria dos seus quase setenta ciclos – Se vocês são tão sabidos e eu sei que são, me respondam isso – qual é o alimento que melhor representa o ciclo de morte e vida?

- Alimento? – perguntei, coçando a cuca. Minha irmã olhou, e me disse que não entendia onde nossa vó queria chegar com essa estória de “sabidos”. Eu não era nem entendido, quanto mais sabido. Nem minha irmã, parecia ter a menor idéia de como responder aquele desafio: de um lado uma mulher graduada pela vida com filhos, netos e bisnetos; do outro lado, dois jovens tolos que falavam sobre tudo o que pensavam, mas não praticavam metade daquilo que estudaram.

Fingi que sabia a resposta e fiquei calado, minha irmã cometeu o erro de tentar adivinhar, mas é claro que não acertou, a resposta vinha da linguagem de mundo da minha vó.

- O Neguinho sabe, não sabe Neguinho?

Quem eu? Eu? Minha irmã, olhou-me com desconfiança. Meu silêncio não era de resposta encontrada e sim de em boca calada...

- Sua mãe está com as mãos na resposta.

Olhamos para a Dona Graça e vimos apenas ela mexendo na massa da tapioca.

- A Tapioca? – perguntamos os dois ao mesmo tempo.

- Não! A Mandioca! - respondeu ela.

- A Mandioca? - perguntamos os dois ao mesmo tempo de novo.

- Sim, a mandioca! Olhem para o nome do alimento: man di oca, mãe da oca, mãe da casa. Que outro alimento, sai da terra para nos dar vida; que outro alimento cai em semente e vira na terra, alimento novo, que tenha nome tão maternal, tão mulher. A mulher é o ciclo da vida, assim como a Mãe Santíssima, e elas são bem representadas na nossa terra pela mandioca.

Mãe di oca??? C´mon!!!!

Quis dar risada, mas calei-me, pois aquela etimologia não parecia corresponder a fatos. O professor de português falou mais alto e não digeri a sabedoria da minha vó, nem minha irmã.

Contudo, a mandioca permaneceu comigo todo fim de semana e comecei a pesquisar sobre o assunto. O que compreendi é que a mandioca ( ou aipim ou macaxeira) é um alimento que tem origem indígena e foi cultivada por varias nações das Américas, antes mesmo da invasão européia. É um alimento tão importante na vida do índio que existe varias lendas envolvendo o surgimento dessa raiz que se tornou alimento. Uma delas que encontrei no wikipédia e diz:

“ Conta a lenda que em épocas remotas, a filha de um poderoso índio da tribo tuxaua foi expulsa de sua tribo e foi viver em uma velha cabana distante por ter engravidado misteriosamente. Parentes longínquos iam levar-lhe comida para seu sustento, e assim a índia viveu até dar à luz uma linda menina, muito branca, que chamou de Mani.

A notícia do nascimento se espalhou por todas as aldeias e fez o grande chefe tuxaua esquecer as dores e rancores e cruzar os rios para ver sua filha. O novo avô se rendeu aos encantos da linda criança, que se tornou muito amada por todos. No entanto, ao completar três anos, Mani morreu de forma também misteriosa, sem nunca ter adoecido. A mãe ficou desolada e enterrou a filha perto da cabana onde vivia e sobre ela derramou seu pranto por horas.

Mesmo com os olhos cansados e cheios de lágrimas, ela viu brotar de lá uma planta que cresceu rápida e fresca. Todos vieram ver a planta miraculosa que mostrava raízes grossas e brancas em forma de chifre, e todos queriam prová-la em honra daquela criança que tanto amavam.

Desde então a mandioca passou a ser um excelente alimento para os índios e se tornou um importante alimento em toda a região.

Mandi = Mani, nome da criança. oca = casa.”

Linda menina, sacrificio, morte, renascimento. Mani...humm...que piada que nada. Cala-te ego, e que os meus ouvidos sempre estejam abertos para essas pérolas dessa gente que aprendeu tudo que sabe na melhor escola que há: a própria vida.


Notas do autor:


Informação sobre a lenda da mandioca: http://pt.wikipedia.org/wiki/Mandioca

Imagem: http://www.rosanevolpatto.trd.br/mandioca01.jpg

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