sábado, setembro 06, 2008

MANUEL

Quando a morte chegou, o encontrou sereno. Não tinha nada nas mãos, na mente só carregava lembranças. Preparou-se para partir, como se vai ao encontro de uma pessoa amada. Estava tudo no lugar, os livros na estante, as louças lavadas, vestia uma bonita camisa de cetim, uma calça bege folgada, tinha aparado a barba, já não usava mais bigode.

Preparou-se para o último baile da vida com a mesmo disposição que tinha ao despertar de cada dia. Embora o corpo estivesse cansado, sendo jardineiro, ele sabia que outros tantos canteiros o aguardavam além do que ele podia ver, e tinha tanto a agradecer, que não ousava sequer pedir mais tempo, afinal, vivera com intensidade cada momento da sua vida e havia recebido tanta coisa, mesmo sem ter pedido. Suprema poesia, era assim que descrevia a sua vida nesse planeta Água. Da Terra, sentiria muita saudade do beija-flor, do vaga-lume, e das flores que cuidava, que tanto o lembravam do Criador.

No seu jardim, girassóis e orquídeas, ausência completa de erva daninha.

Havia tanto ainda por fazer, ainda havia espaço para o cultivo das margaridas, dos lírios, mas o desapego era preciso, para cruzar bem essa ponte rumo ao Divino.

Os amados iriam chorar, os amigos se calariam por um tempo, até que as flores desabrochassem novamente; pois a vida segue pelos raios da aurora, depois da noite escura da partida de alguém querido.

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