sexta-feira, setembro 26, 2008

CAFÉ COM ANCHIETA

Pátio do colégio, vejo o índio catequizado de arco e flecha me observando. Confesso, que sempre tive preconceito e ainda tenho minhas ressalvas em relação a palavra de Jesus sendo enfiada maracá a dentro nos índios, mas essa tarde, sou turista velho nas ruas do centro de Sampa, e finalmente entro no museu do pátio do colégio do famoso jesuíta, lugar onde a cidade foi fundada. Uma outra confissão se faz necessária: fui atraído para o lugar, pois havia lido em alguma revista, que lá dentro, havia uma cafeteria; e como qualquer bom cronista ( ou aprendiz), não existe coisa melhor lugar para escrever, do que um bom ambiente, regado a café e croissant.

A cafeteria era realmente divina. Ficava em um lugar verde, com árvores e pássaros soltos, em que você, por alguns momentos, esquecia que estava na selva de pedra, metrópole gigantesca que já foi um dia uma pequena vila chamada São Paulo de Piratininga. Porém, acabei sendo atraído pelo mistério do museu. O que haveria escondido atrás daquelas paredes? São Paulo era a minha cidade, nada mais justo do que descobrir um pouco da sua origem no próprio lugar onde foi fundada.

Em meio às inúmeras estátuas de Cristo crucificado, símbolos religiosos, imagens dos Jesuítas e dos vestígios do que foi a construção original ( o prédio atual é uma reconstrução), encontrei em uma das salas, na pinacoteca, o famoso quadro de Portinari, onde podemos ver um jovem Anchieta, escrevendo uma oração nas areias de uma praia, sendo observado por dois índios. O quadro é belíssimo, e é de uma poesia mágica, que nos leva além do tempo, e observamos junto com os índios, os versos do padre na areia em homenagem à Virgem Maria. Estou lá com os índios, mas eles não falam comigo; nem o padre, que segue viagem, e deixa os versos sendo levados pelas ondas. Esforço-me para ler os escritos, que dizem os estudiosos, era mais ou menos assim:

“ Diabo
Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.”

Contudo, eu vi mesmo outros versos, nada de ameaças ao diabo ou referências às onze mil virgens; eu li na areia da praia, palavras que saldavam Yemanjá, o anjo azul que toma conta do mar, que protegeria a passagem entre Portugal e Brasil, e traria a salvo, todas as mulheres que povoariam essa terra. Sim, Anchieta saldava e fazia um Ode a Yemanja e antes que eu seja enviado para o tribunal da Santa Inquisição, por tamanha audácia, leia os versos abaixo:

“Anjo

Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.”

Mudei minha opinião sobre o Padre Anchieta, ao final das contas, o Padre não era apenas um catequizador de índio, mas o primeiro brasileiro a se utilizar do sincretismo.

Se vocês não viram nada disso, nesses escritos, parabéns, vocês descobriram que religião é sempre um assunto particular, onde a gente dá a cara ao santo que quiser dar.

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