quinta-feira, agosto 14, 2008

ENTREVISTA COM UM CURIÓ

Em uma lanchonete obscura, próxima da estação Terminal Santo Amaro de ônibus, tomei um café e comi um pedaço de bolo. O local não convidava ninguém ao desjejum, mas era o único estabelecimento aberto aquela hora da manhã e como ainda faltava meia hora para a minha aula, a escolha de permanecer naquelas ruas escuras não parecia ser a mais apropriada.

O dono da lanchonete ( só havia ele por lá) serviu-me o café, que não era preto, parecia meio azul e meu pedaço de bolo, enxugando suas mãos em um avental que não via água à eons. Tomei o "café azul", orando ao Santo dos Inocentes que comem em Lugares Bizarros, que me protegesse.

Enquanto eu travava uma batalha entre a vontade de ficar e o desespero de sair correndo daquela espelunca suja, notei o canto de um curió tenor, cantando a pleno bico e pulmão, sua ópera de cativeiro.

Sua gaiola estava próxima do banheiro e ele entoava o seu canto, sem se importar com o cheiro que vinha lá de dentro e com as grades que o impediam de voar livremente. Sendo um voador, falo "passarês" fluentemente e perguntei ao curió:

- Por que canta tão maravilhosamente, Curió? Você está numa gaiola, deveria estar cantando um blues!

O Curió olhou para mim e cantou algo, que traduzo para vocês assim:

- Não tenho escolha, escritor! Preciso bem estar, mesmo em cativeiro. Queria bater asas ai fora, voando livremente e cantando com o sabiá, com o colibri e com o bem-te-vi, mas a minha realidade é bem diferente e celebro a vida como dá, contudo, não serão essas grades ou a ignorãncia desse humano que pensa que é meu dono, que mudará o meu cantar.

Um comentário:

Anônimo disse...

... café e o bolo ficaram até mais saborosos, depois dessa conversa, hein? Impressionante o que estes bichinhos têm a nos dizer...

Ricardo Tolomelli from Voadores

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