sexta-feira, junho 20, 2008

Diálogo Entre Macunaíma e seu Criador Mário de Andrade

Publicado por ManoMelo em 23/2/2007


Macunaima encontra uma escrivaninha e, sobre ela, os manuscritos e anotações de Mário de Andrade para Macunaima. Folheia com atenção, se reconhecendo mno que lê. Pressente uma presença na sala. É o espírito de Mário de Andrade, seu autor, uma figura na penumbra:

MÁRIO -Olá, Macunaima, eu estava lhe esperando. Sabia que um dia você apareceria por aqui.

MACUNAÍMA - Ôxente, aparição, vem me dar susto não. Tu parece um lobisôme. Como é que tu sabe o meu nome?

MÁRIO -Sei tudo sobre você, meu neto. Nada teu me é secreto. Eu sou o criador, você é a criatura

MACUNAÍMA - Mas será o Deus da Silva? Tá com mania de grandeza? Tu
lá é Deus pra criar o que é meu?

MÁRIO - Eu sou o teu autor. E te criar foi um trabalho de amor.

MACUNAÍMA - Não conheço pai nem mãe
Nem nestas terras parentes
Sou filho das pobres ervas
Neto das águas correntes

MÁRIO - Para que os brasileiros não esquecessem o seu herói, fui te buscar na fala do povo, nas festas de rua, no colorido das praças. Com bastante meiguice de sentimento, paciência no entusiasmo, força na peitaria e capricho na expresão da poesia.

MACUNAÍMA - Pois não tô satisfeito com o meu destino. Formiga não tem Caroço, cearense não tem pescoço e banananeira não tem no. Ter autor é muito bão, mas barriga cheia é mió.

MÁRIO – Mas qual é o problema, ó herói de nossa gente?

MACUNAÍMA – É que você podia me fazer diferente.
Nem tão doce nem amargo
Nem tão frio nem tão quente.
Não quero que Ci, minha amada Ci,
Vá pro céu,
Nem que roubem o que é meu.

MÁRIO – Mas herói, você não está curtindo o maior barato?

MACUNAÍMA – Exijo modificações no última ato.

MÁRIO – Então não vale a pena, Piá?
E o cheirinho de açucena do cangote das morenas?
O canto dos passarinhos,
O amor de Sofará?
E as pacas, e as cutias, e os preás?
E as águas dos rios pra se banhar?
E toda esta poesia que eu fiz
Transbordando de teu olhar
Pra te fazer feliz?

MACUNAÍMA – E porque fez tanto carrapato
Pra me sugar pelo mato?
E os boi-tatás,
Os perfumes de gambá,
Os abraços de tamanduá,
As varizes da varina?
Tá pensando que aluá
É refresco de urina?

MÁRIO – São dois lados da mesma moeda,
Macunaíma,
Duas metades do mesmo tacho,
Às vezes tá por cima,
Às vezes tá por baixo.
Um trem não corre sem seus trilhos,
Nem galinha vive sem comer milho.

MACUNAÍMA – Pois tô afim de começar tudo de novo.

MÁRIO – Você será sempre novo,
Porque você ganhou a boca do povo.

MACUNAÍMA- Me diz uma coisa, como que é teu nome, Amizade?

MÁRIO – Mário. Mário de Andrade.

MACUNAÍMA – Então tá bom, Seu Mário.
Agora me arresponda se você pode:
Quais são as três coisas mais ruins que o mundo fez,
Coitadinhas delas três?

MÁRIO – Promessa de crítico? Promessa de político? Piada de português?

MACUNAÍMA – Não acertou nenhuma vez, seu freguês.
É cachorro que pega bode,
Mulher de bigode
E gente que não fode
Que nem o diabo pode.

MÁRIO - Macunaima, você pertence ao acervo da cultura popular,

Porisso contei tua saga de antes e de depois.
Mais importante é o mito.
O criador não manda na criatura.
Ele só escreve o que já está escrito

Mano Melo
http://www.pierdeipanema.com.br/modules/smartsection/item.php?itemid=8


Frank Oliveira http://cronicasdofrank.blogspot.com

Um comentário:

Poeta Mano Melo disse...

Que ótimo! Muito feliz de ver meu poema em seu blog. Abraços.

Ocorreu um erro neste gadget

AmazingCounters.com
Overtons Marine Supply