quarta-feira, junho 18, 2008

COMER, COMER - PARTE FINAL

Eu sei que você se recorda, não preciso repetir, mas não custa lembrar que essa não é uma crônica vegetariana. Parei de comer carne vermelha, mas ainda como coxinha de frango e paella. O motivo pelo qual, deixei de saborear um churrasquinho de lombo, foi a visita de um fantasma chamado Prático, que eu ajudei a matar em 1980.

Prometo que essa é a última crônica sobre esse assunto. Se toda essa narração lhe deu sono, peço desculpas, sou ainda um escritor enfadonho; agora se você sentiu fome: vá comer, caro leitor! Pois, o que você estará prestes a ler, vai lhe tirar todo o apetite.

Para comemorar o nascimento da minha irmã, meu pai preparou um banquete e trouxe um convidado, que em pouquíssimo tempo ganhou meu carinho. Prático era o nome que dei a esse porco com cara de nervoso que lembrava um dos três porquinhos. Contudo, não importava o tamanho do meu afeto, Prático estava condenado a morte, afinal, ele seria o prato principal.

Estávamos nesse terreno entre o Cruzeiro Velho e o Novo, longe dos olhares dos curiosos. Prático gritava, gruinha como se adivinhasse o que estaria por vir. Meu pai amolava um facão, enquanto Eugênio, nosso vizinho, retirava uma marreta da caminhonete, e por ele não ser Thor, o Deus do trovão, mal conseguia segurá-la; outros dois homens amarraram e seguravam o porco gigante. Já assistira Tom e Jerry o suficiente para adivinhar que algo sinistro iria ocorrer.

Quando Eugênio deu a primeira marretada, meus olhos se encheram de lágrimas, enquanto a testa de Prático foi amassada e sua cabeça virou uma fonte de sangue. Jatos vermelhos jorravam pelo ar, manchando o verde do mato, a camisa branca dos homens e o cinza da terra. Prático era forte e permaneceu gritando; o que exigiu uma segunda marretada, houve sangue e choro, mas o bravo suíno não caiu e continuou firme por algum tempo, até que já sem tanta força para resistir, o animal praticamente ofereceu o pescoço para o facão do meu pai, que o cortou, como se tivesse feito aquilo a vida inteira. O pobre animal, enfim, despencou como se fosse uma manga madura aos pés dos homens.

Eu já não conseguia chorar. Meus olhos permaneciam abertos em choque, sem piscar, enquanto observava aqueles homens desmembrando o bicho infeliz e pouco a pouco, o transformando em carne de açougue. Engraçado ou trágico, mas eu não me lembrava mais disso – trauma de infância, talvez – até que num certo domingo, Prático veio me visitar. Se foi sonho ou pesadelo, devaneio ou lembrança, não sei te explicar; mas vi o porco elefante na minha frente. Não houve ruído, grunhido, nem ele falou comigo – vai ver ele não nasceu mesmo para ser um porco falante – ele apenas me olhou por alguns segundos; o suficiente para que eu recordasse o crime; o suficiente para que eu lembrasse que esquecera um dos momentos mais terríveis da minha vida.

O fantasma do porco se foi e com ele, a minha vontade de comer carne vermelha. Se hoje evito a salsicha e a calabresa, não é porque tenho pena de todos os pobres suínos do mundo que são sacrificados para a nossa alimentação (somos o topo da cadeia alimentar e cada um com o seu prato). Se não consigo mais comer carne vermelha e porque algo ocorreu comigo, uma mutação, uma peia, sei não, mas não consigo deixar de associar a carne vermelha à lembrança de Prático e talvez essa foi a maneira que meu corpo escolheu e minha alma decidiu para reparar o assassinato que assisti e somente agora, consigo escrever a respeito e revelar.

Agora, desculpem-me, mas preciso interromper a sua leitura, estou com fome, preciso comer algo.


Frank Oliveira

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