quinta-feira, maio 15, 2008

TRICOLORES

Meu pai era botafoguense, meu irmão mais novo vascaíno e o mais velho, flamenguista. Eu me tornei fluminense. Ninguém na família era carioca, nem tão pouco, morava no Rio de Janeiro, mas desde cedo aprendi em casa, o verdadeiro significado da palavra respeito pela opção alheia. Não me perguntem o porquê, mas as ruas de Brasília eram enfeitadas com as cores das bandeiras cariocas e paulistas.

Os bons ventos levaram meu pai para ser parte dos torcedores das nuvens e minha família para recomeçar o jogo num outro campeonato da vida em São Paulo. E como todo novo “paulistano”, de todos os times desfilando nas passeatas dos bairros, optei pelo tricolor paulista; talvez em uma tentativa de ainda manter a paixão de infância pelo outro tricolor do Rio.

Nunca fui “fanático” pelo São Paulo, sempre fui um torcedor brando. Se fui torcedor de carteirinha e camisa de time um dia, isso ficou na infância. Nunca fui num estádio, nem sei o nome dos jogadores, mas acompanho o placar dos jogos e torço em silencio por suas vitórias.

Ontem à noite, o São Paulo e o Fluminense jogaram no Morumbi, por uma vaga na disputa pela Taça Libertadores da América. A Disputa dos dois tricolores teve um impacto estranho no torcedor que há em mim: sentados no sofá, assistindo o jogo, estava de um lado, o adulto zen torcedor e do outro lado, a criança barulhenta, torcedora roxa. Enquanto o adulto devorava um prato de aperitivos e tomava sua cerveja; a criança se esbaldava com pipoca e iogurte. O moleque vibrava toda vez que o fluminense ameaçava e o adulto se retorcia quando a ameaça parecia eminente.

Quando o adulto finalmente gritou gol, o moleque calou-se aborrecido. O adulto virou criança em sua comemoração e o moleque virou adulto na sua raiva temporária. Porém, ao fim do jogo – belíssimo por sinal – o adulto e a criança se uniram num longo abraço e o jogo terminou com as três cores mais bonitas do futebol: espetáculo, profissionalismo e paz entre as torcidas.


Frank Oliveira

2 comentários:

Anônimo disse...

From Recanto das Letras:

Frank, que beleza de crônica. Sutil, tranqüila, gostosa de ser lida. Valeu mesmo.
Enviado por Vertigo em 15/05/2008 18:56
para o texto: TRICOLORES (T990962)
__________________________
Viva a paz, entre os torcedores, ...
Enviado por Kalu em 15/05/2008 16:49
para o texto: TRICOLORES (T990962)
__________________________________
Salve grande tricolor Frank!! Parabéns pelo texto e por conseguir traduzir em palavras, mui belas por sinal, o sentimento quase inexplicável da paixão de torcedor... Muita sensibilidade de sua parte!! Eu não poderia esperar outra coisa de um autêntico TRICOLOR!! Parabéns mais uma vez pelo texto, pela escolha de times e semana que vem, mais um capítulo desta sua saga particular! Saudações Tricolores!!
Enviado por Marcelo Scot em 15/05/2008 16:44
para o texto: TRICOLORES (T990962)
________________________________
Lindo isso, torcer pelo seu time respeitando o adversário. Se na realidade fosse assim, nossos estádios estariam lotados sempre.
Enviado por Pedro Carlos da Silva em 15/05/2008 16:39
para o texto: TRICOLORES (T990962)

Anônimo disse...

Re: TRICOLORES... e azuis da cor de Krishna (Era: CRÔNICA DO FRANK)


Em voadores, "frankrivers2002" frankvoador escreveu:
Meu pai era botafoguense, meu irmão mais novo vascaíno e o mais
velho, flamenguista. Eu me tornei fluminense. Ninguém na família
era carioca.

Compreendo perfeitamente. Nasci flamenguista, como meu pai, cearense
de Ubajara. Mas o menino araxaense que era levado pelo mesmo pai ao
mineirão, desde os 5 anos de idade, para ver Raul, Piazza, Tostão,
Natal, Dirceu Lopes, Pedro Paulo e cia em ação passou a ter outra
paixão, azul da cor de Krishna...

A Camilla talvez não tenha entendi porque eu fui ao Cruzeiro e
Atlético no Mineirão, no último feriado. Tive que mandar, pelo
smartphone, um vídeo da torcida para ela acreditar que eu realmente
estava ali. Mas aquelas cores, aquele verde e azul, falam de uma
maneira totalmente diferente ao meu coração, lembrando de um tempo em
que andava, mais livre, o menino e o moleque das Gerais que existem
morando sempre em meu coração.

"Os bons ventos levaram meu pai para ser parte dos torcedores das
> nuvens e minha família para recomeçar o jogo num outro campeonato
da vida em São Paulo. E como todo novo "paulistano", de todos os
times desfilando nas passeatas dos bairros, optei pelo tricolor
paulista;"

... e mais tarde, morando em São Paulo, como bom cruzeirense, me
tornei também um torcedor do time co-irmão tricolor, que comunga além
das torcidas, muito do estilo de futebol e administração. Só entendi
o motivo da torcida cruzeirense sempre lotar os jogos do São Paulo no
Mineirão quando, me arriscando a ver um jogo do Cruzeiro aqui em Sâo
Paulo, fui "escoltado" pela Independente para fugir da violência das
torcidas daqui.

"Nunca fui "fanático" pelo São Paulo, sempre fui um torcedor brando.
Se fui torcedor de carteirinha e camisa de time um dia, isso ficou
na infância. Nunca fui num estádio, nem sei o nome dos jogadores,
mas acompanho o placar dos jogos e torço em silencio por suas
vitórias."

Também me identifiquei. Sei os resultados, mas não sou nenhum Wagner
Borges (rs). E se vou ao estádio uma vez a cada n anos, é muito para
colocar o moleque em campo, ou até mesmo para observar (e participar)
do inegável fenômeno bioenergético e catarse que ocorre ali.

" Ontem à noite, o São Paulo e o Fluminense jogaram no Morumbi, por
uma vaga na disputa pela Taça Libertadores da América. A Disputa
dos dois tricolores teve um impacto estranho no torcedor que há em
mim: sentados no sofá, assistindo o jogo, estava de um lado, o
adulto zen torcedor e do outro lado, a criança barulhenta, torcedora roxa."

Tive sensação parecida há um tempo atrás, quando Cruzeiro e São Paulo
disputaram a final de uma Copa do Brasil, sendo o último jogo no
mineirão. Se não me engano, 2003. Eu estava acostumado a torcer pelos
dois clubes, isoladamente, e dizia que se jogassem, eu torceria pelo
empate.

"Enquanto o adulto devorava um prato de aperitivos e tomava sua
cerveja; a criança se esbaldava com pipoca e iogurte. O moleque
vibrava toda vez que o fluminense ameaçava e o adulto se retorcia
quando a ameaça parecia eminente."

Pois é. E como o adulto é mais articulado, disse para meu filho,
também cruzeirense e são paulino, que assistia comigo, que eu
tenderia a torcer pelo São Paulo, afinal eu estava aqui, é minha
identidade atual, o escudo no meu copo de café, como sou visto pelos
colegas de empresa, bla bla bla, o cruzeiro era o time de infância,
etc. O Flavinho achou um absurdo, mas respeitou. Mais perto da
infância do que eu, o mineiro de Poços de Caldas não entendeu como o
outro mineiro aqui de Araxá poderia torcer por outro time, a não se
aquele que eu desde cedo lhe ensinei a torcer.

"Quando o adulto finalmente gritou gol, o moleque calou-se
aborrecido. O adulto virou criança em sua comemoração e o moleque
virou adulto na sua raiva temporária."

No meu caso, foi o contrário. Toda minha lógica são paulina racional
e adulta foi embora quando o cruzeiro, teoricamente inferior ao
grande São Paulo de então, reagiu e marcou gol(s). O adulto que se
danasse, o fato é que veio das entranhas um moleque, muito maior do
que aquilo que eu chamava de eu, e começou irresistivelmente a pular
e comemorar em transe, abraçando o Flavinho e se regojizando com a
derrota do meu tricolor. Lembrei-me até daquele filme "Será que ele
é", só que, no caso, sem viadagem, rs. Há naturezas que estão
gravadas em nós, e foi muito bom saber e perceber que minha criança
interna não morreu, e ela é azul como o Krishna bebê.

"Porém, ao fim do jogo – belíssimo por sinal – o adulto e a criança
se uniram num longo abraço e o jogo terminou com as três cores mais
bonitas do futebol: espetáculo, profissionalismo e paz entre as
torcidas."

Ainda refletindo sobre minha comemoração, e comemorando o primeiro
título de um ano em que o cruzeiro ganhou também, além da Copa do
Brasil, o Campeonato Brasileiro e a Libertadores da América (ou seja,
tudo), acabei me lembrando que gosto muito mais do bom futebol do que
das paixões, e que sou muito mais universalista e agregador do que
sectário e divisor. Resolvi o "conflito" interno entre ser
cruzeirense ou são paulino ainda na mesma tarde feliz: Eu era os
dois, o que foi muito vantajoso, pois dificilmente ambos os grandes
times estarão ruins ao mesmo tempo.

Sendo universalista, pegando o melhor de cada um, é difícil o ano em
que eu não seja campeão.

E se por um dia os dois enfrentarem, estou tranquilo: Há um menino,
há um moleque, morando sempre em meu coração. Toda vez a tristeza me
alcança, o menino me dá a mão, e me fala de coisas bonitas que - eu
acredito - não deixarão de existir: amizade, caráter, bondade,
alegria e amor... Cruzei,ro,ô!!!


Láz
http://www.voadores.com.br/lazaro

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