terça-feira, abril 29, 2008

O BANCO SOLITÁRIO

Havia um banco vazio no metrô lotado. Não estava sujo, nem quebrado; nem era banco para deficientes ou havia alguém não-praticante de banho sentado ao lado. Era um banco solitário, aguardando ansioso ser utilizado.

- Pode sentar! - disse um rapaz em frente ao banco, estava louco para sentar, mas a moça ao lado era bonita demais para ele cometer essa indelicadeza.

- Obrigada! - agradeceu a moça - Desço na próxima estação.

O flerte no ar foi substituído por uma mulher carregando quatro sacolas querendo sentar-se, mas ela foi impedida por um aviso:

- Ei, dona! Deixa a idosa sentar. - disse um homem próximo da porta.

- Idosa é a sua mãe! - respondeu a velhinha para o homem que queria ajudá-la - Ainda tenho idade para ficar em pé. Não preciso ir sentada.

- Pode sentar, senhora. - disse a mulher das sacolas.

- Não me trate como inválida. - retrucou a velhinha.

- Estou apenas tentando ser gentil, senhora!

- Vai ser gentil com o diabo. Não preciso de gentileza de ninguém.

Uma pequena confusão se formou no vagão. Empurra-empurra, xinga-xinga e o banco continuava desocupado. De repente uma luz no fim do túneo, abriram-se as portas na estação Ana Rosa e entrou uma mulher grávida. Todos deram espaço para ela passar, sentar no banco e acabar com aquela confusão.

- Pode sentar, moça! - disse a velhinha que não queria ser idosa - Para quando é o bebê?

Para surpresa de todos, a moça desatou a chorar.

- Eu estou fazendo regime, ok? - disse entre lágrimas.

Um silêncio constragendor reinou no vagão, enquanto a mulher grávida, ou melhor, a moça acima do peso descera com vergonha na próxima estação.

Paraíso, Vergueiro, São Joaquim e Liberdade. As pessoas foram descendo, outros bancos ficando vazios. Fiquei com pena do banco solitário; já deve ser difícil trabalhar como assento de metrô, agora ser motivo de tanta briga, picuinha e conflito é algo que não deveria estar em seu currículo.

Se ao menos, eu pudesse falar a sua língua, eu diria ao banco, que nós, seres humanos, somos assim mesmo, brigamos por qualquer coisa e fazemos guerra por coisa nenhuma. Seguimos nesses conflitos inúteis que tentam em vão, preencher um certo espaço vazio, que poderia ser preenchido com algo mais produtivo.

Mas o banco já deve estar acostumado com isso. Percebi isso, quando desci na Sé e vi centenas de pessoas entrando pela outra porta, quase pisoteando umas as outras para sentar nos bancos vazios. O banco deve estar rindo ao ver esses adultos, agindo como meninos, brincando a eterna brincadeira do banquinho, onde quem chega primeiro senta e quem fica por último, permanece a viagem inteira desejando que o banquinho fique vazio. O prêmio dessa brincadeira é percebermos que depois de tanta briga para sentar num banquinho, daqui a pouco, ninguém nem vai lembrar mais disso.

Frank Oliveira

3 comentários:

Anônimo disse...

Uma bela crônica. Essas coisas acontecem e depois as encaramos como fatos engraçados.Ás vezes é melhor deixar como está e ver como é que fica.
Enviado por Roberto Kamaura em 01/05/2008 08:05
Recanto das Letras

Anônimo disse...

HAhahahahahaah.aaaaaaaaaaaaaaaa
Boa Boa!

Estrelando...
Um chavequeiro furado.
Uma moça gata saindo pelas beradas
Um cara que pega o "trem andando" e ainda quer sentar na janelinha.
Uma sacoleira carregando um saco de paciencia, haja saco!
Uma véia que não admite ser velha
Uma gordinha cansada que parece grávida.
Um bisbilhoteiro assistindo tudo morrendo de vontade de sentar pra
trocar uma idéia com o banco! Ou seria uma bufa?

Com muito menos já da pra fazer uma peça de teatro.

Depois aparece banco por ai querendo fazer analise e tomando
anti-depressivo e ninguem sabe porque..

Yker ( Via Voadores)

rdc - Cioccolato disse...

Curti e já vi esse tipo de cena! =)

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