domingo, março 16, 2008

Lhasa Livre

Em 2003 estive em Dharamsala, no estado indiano de Himachal Pradesh, onde fica a Administração central do Tibete no exílio e onde vive o Dalai Laima,líder espiritual do Tibete. Não sou Budista, mas nutro uma simpatia especial por esse povo que teve a sua terra invadida pela China nos anos 50. Calcula-se que a Índia tenha recebido cerca de 130.000 tibetanos desde 1959 e todos os dias, mais refugiados chegam até a cidade, em busca de refúgio e liberdade.

Conheci Kaila, no restaurante do hostel em que estava hospedado. Falando um inglês fragmentado, era engraçado ouvi-lo falar. Não pela sua dificuldade de pronunciar certas palavras, mas por ele utilizar constantemente expressões e gírias típicas de filmes americanos.

- Aprendi inglês, assistindo filmes contrabandeados em Lhasa - explicava ele - por isso consigo mais entender que falar. Agora é a vez de vocês, punks, façam valer o meu dia!

E ele perguntava sobre tudo, rodeado por vários viajantes, ele queria saber tudo sobre os lugares de onde vinhamos, enquanto, nós tentavámos saber ainda mais do lugar de onde ele veio. Descobrimos que ele atravessara os Himalaias a pé e que ficara quase 04 dias sem comer nada, pois o seu mantimento tinha acabado. A esperança de chegar a Índia lhe dava forças e o sonho de ver com seus próprios olhos o Dalai Lama, saciava a sua fome e sede.

- A falta de comida e água não me incomodava, apenas a vontade de chegar ocupava meus pensamentos. Então, todos jogam futebol no Brasil?

Queríamos saber mais: como era a vida de um jovem no Tibet; como conseguira fugir; como os chineses tratavam o povo de verdade; mas o jovem Kaila não parava de perguntar sobre as luzes de Las Vegas, as lutas dos gladiadores em Roma; que fim levou o Napoleão depois da derrota da França e por qual razão o idioma dos brasileiros era português, se não estavámos em Portugal. Perguntas inocentes, até de certa forma, tolas; mas que refletia a busca de conhecimento que o jovem Kaila desejava e que no ocidente, qualquer criança de 08 anos têm ao alcance de um mouse pelo Google.

O Tibete faz parte de um outro mundo. Um mundo que lemos e pensavámos ter existido a séculos atrás, mas ainda é parte do cotidiano de milhares de tibetanos. Um mundo de opressão religiosa, de cassação de direitos civis, ausência de liberdade e falta de oportunidades. Um mundo que obriga jovens a fugir em busca de um ar não censurado e atravessar Himalaias em busca de expressão.

O estranho é que apesar de todo o sofrimento que passara, Kaila mantinha um eterno sorriso no rosto; sorriso que reflete uma paz interior que está tatuado na face de cada tibetano que ainda luta por autonomia e liberdade num mundo em que nenhuma nação e nem mesmo a ONU ousam sequer discutir uma solução com a toda poderosa China por medo de retaliação política.


Frank Oliveira


Saiu na Uol.com.br
Dalai Lama denuncia que o Tibete está sofrendo um "genocídio cultural"

O Dalai Lama, disse hoje que essa região está sofrendo "um tipo de genocídio cultural" e que as autoridades chinesas pretendem alcançar a paz através do uso da força.

Leia mais em:
http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2008/03/16/ult1808u114927.jhtm

3 comentários:

Anônimo disse...

From Voadores:

Olá Frank e Voadores,
Concordo com os aspectos opressivos que a China impõe ao Tibet. Porém, a
questão é bem mais complicada e as vezes, não estou dizendo que é o caso do
Frank, o pessoal dito espiritualista acaba sendo muito superficial na
questão.

Veja que explorações imperialistas de super-potências sempre foram comum. A
própria China já foi chamada de "o quintal do mundo" no começo do século XX,
sofrendo ações imperialistas japonesas, americanas, européias...

Não que isso justifique as ações chinesas, mas por exemplo, temos casos tão
ou mais graves que o Tibet em regiões da África e Oriente Médio que
são pouco falados, muitas vezes nem mesmo lembrados. Mas devido a figura
carismática do Dalai Lama (aliado a sua popularidade via best sellers de
auto-ajuda e filmes americanos) o Tibet é sempre lembrado e os
espiritualistas adoram mandar uma vibração para lá e ficar torcendo pelo
Dalai.

Porém, apenas para não me alongar muito, não esqueçamos que o Dalai Lama
prega a volta do Estado Teocrático no Tibet, onde religião e Estado se
confundem e ele, como representante maior do budismo tibetano Gelug, seria
chefe supremo do Estado. Uma proposta que convenhamos está um pouco defasada
do mundo contemporâneo e que normalmente não apresenta bons resultados (vide
islã no Oriente Médio), além de ser extremamente opressor também!

Digo isso porque entendo que exista muito romantismo espiritualista em
relação ao Tibet, enquanto realmente a cultura do povo é massacrada. O
budismo e a espiritualidade tibetana são cruciais para o entendimento
daquele povo, porém são facetas muito pequenas de todo universo cultural da
região. Acredito que o Tibet ganharia mais notoriedade se tivesse realmente
um plano político de liberdade e autodeterminação de seu povo, coerente com
a época que vivemos. Caso contrário, não acredito, tão cedo em uma boa
solução...

Abraços

Fernando Sepe

Anônimo disse...

From Vaodores:
Fernando, o Dalai Lama não prega a volta do Estado teocratico. Ja ouvi
isso da própria boca dele. Ele mesmo disse que não é nada mais que um ícone, ou algo assim,como a Rainha da Inglaterra (não sei se foi com essas palavras).

E apontar o dedo pra outros países que sofrem com intolerância,
opressão e guerras não ajuda em nada a situação do Tibet. Devemos
atentar pra toda e qualquer opressão no mundo, repudiá-la, divulgá-la, mandar nossas preces e melhores vibrações. Ignorar ou justificar, NUNCA.
Jack Dawson Sparrow" truxton acid0

Anônimo disse...

--- Em voadores@..., "Fernando Sepe"
sepefernando@... escreveu
Olá Frank e Voadores,
Concordo com os aspectos opressivos que a China impõe ao Tibet.
Porém, a questão é bem mais complicada e as vezes, não estou dizendo
que é o caso do Frank, o pessoal dito espiritualista acaba sendo
muito superficial na questão.

Fala Fernando!!!

Só aqui na Voadores, podemos levantar essa questão e termos diversos
pontos de vistas. Concordo com vc, em relação a toda essa questão de
termos mesmo um estado separado da religião, mas a discussão é sobre
liberdade e respeito.

Um povo deve ter o direito de escolher como quer viver e como ser
administrado. Sou contra qualquer interferência religiosa na forma
como somos governados ( por ver a maior potência do mundo fazendo
guerra contra o eixo do mal, segundo a doutrina cristã e não
conseguirmos,aqui no Brasil, aprovar o uso das células de
embrionárias para cura de milhares de pessoas, por causa,
novamente , da religião); mas também sei que cada povo ou nação, tem
o seu próprio tempo de maturação e evolução - e o que funciona para
gente, não funciona para eles - sei disso, não porque li ou alguém
me contou: eu fui até esses países e convivi com essas pessoas que
vivem sob um regime "errado" de acordo com a crença ocidental.

Quanto estive em Dharansala, na India, o que vi foram centenas de
jovens tibetanos felizes com a oportunidade de aprender e expressar
a sua religiosidade. Muitos turistas vão até o Tibete,na China, mas
só vêem aquilo que a China deixa transparecer. Os tibetanos podem
ser presos se falarem o que realmente está ocorrendo para
estrangeiros. Se a coisa fosse realmente transparente, a China não
teria proibido jornalistas de ir até a região.

Enfim, tive minha experiência com o Tibete, com os tibetanos na
India e no Nepal. Nada a ver com o Budismo ou religião, e sim com as
pessoas que encontrei e estavam felizes, apenas por estarem fora do
controle chinês.

O Dalai Lama, pode ser sim, famoso pacas por seus livros de auto-
ajuda e blá, blá, blá; mas a de se dar o devido valor quando
um "papa" oriental diz ser nada mais que apenas um monge, para um
bando de baba-ovo que acreditam que ele seja a encarnação de Buda. E
sim, o Pirata Acid está certo quando disse ter ouvido do Dalai Lama
que se pudesse voltar ao Tibete, não iria criar um estado religioso,
pelo contrário, o cara nem quer que o Tibete seja um país a parte,
quer apenas autonomia para que o seu povo possa rezar, falar, ser o
que quer que eles queiram se tornar...

Frank

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