quinta-feira, março 20, 2008

ALINE E O ASHRAM DA ALEGRIA


- Meu sonho é me tornar uma paraplégica! - diz ela. Sorriso eterno nos lábios, olhos brilhantes e humor lapidado. Essa é Aline que todos amam e que me inspira tanto.

- O quê? - pergunto automaticamente.

- Vejo na TV ou na rua, os paraplégicos se virando, fazendo coisas, tendo liberdade e se movimentando. Bate uma inveja, mas inveja boa - diz sorrindo - se ao menos eu pudesse ficar paraplégica, isso me deixaria muito feliz.

Aline tem 22 anos, há quase 02 anos, não consegue mover músculo algum abaixo do seu pescoço. Uma operação mal sucedida, um tumor benigno indo para o lado negro e tirando a sua força, tornou-a tetraplégica. Desenganada por muitos médicos, ela luta ,desde então, contra a maré do pessimismo externo - que ela faz questão de deixar do lado de fora da porta - e por meio de muito bom humor e força de vontade, conquista todos os dias pequenas vitórias.

A sua casa é um templo da alegria, difícil é ir visitá-la e não deslocar o maxilar de tanto dar risada. Contudo, ela é um caso á parte, conta com uma família maravilhosa, amigos presentes e mesmo com pouco dinheiro, têm uma estrutura montada em casa, que lhe possibilita certo conforto. – Há outros tantos tetraplégicos por aí, que não possuem a mesma chance que eu - ela diz - Vou para a AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente) no carro da minha mãe, mas há tantas outras pessoas chegando de ônibus, muitos nem possuem cadeira de rodas.

Há milhares de tetraplégicos no Brasil e não temos a menor idéia do que essa população de "eficientes físicos" passa até que um deles esteja vivendo perto da gente. No caso da Aline, morando na porta ao lado. Acompanho sua luta e seu progresso desde 2006 e ainda me surpreendo com a sua energia e perseverança. Talvez, o que me surpreenda mais, seja o fato, que eu não teria a mesma força; só de pensar na impossibilidade de não conseguir escrever, já me parte o coração, imagina...

- Quero muito fazer algo, Fran - ela diz - Sei que se eu me esforçar, estudar e conseguir ter acesso a bons tratamentos, conseguirei recuperar alguns movimentos no meu corpo - Verdade, antes mesmo que conseguisse entrar na AACD, contrariando as previsões, ela recuperou o movimento da sua mão esquerda - Sinto que é hora de me movimentar e parar de esperar que uma cura milagrosa caia do céu – diz e permanece em silêncio por alguns segundos, até que conclui: Acho que estou um pouco ansiosa.

- Ansiosa? Ficou louca, menina! É a primeira vez que te vejo assim depois de 02 anos. Isso é normal, quero dizer, anormal - respondo rindo - Você sempre foi paciente e tranqüila, por isso está tão bem. Eu no seu lugar, estaria arrancando os cabelos na primeira semana.

Ela dá risada, compreende o absurdo que eu acabara de falar. Para um tetraplégico, arrancar os cabelos, ou qualquer outro movimento, está tão distante quanto ir a nado ao Japão.

(Foto: Aline e sua mamãe heroína: Ivanilde)

Aline é bem consciente do que pode ou não voltar a fazer. Sabe que no seu caso, existe somente uma pequena chance que consiga voltar a se movimentar, mas ela se agarra a essa possibilidade dia e noite.

Gostaria de poder fazer algo, mas até o momento, ela faz mais por mim do que eu por ela. Cada visita no seu Ashram* da alegria é uma lição de vida e isso não se dá pela comparação absurda que todos fazemos quando estamos diante de alguém com problemas físicos – ver alguém incapacitado, infelizmente, faz com que sintamos o quanto temos sorte na vida por estarmos saudável - Aline é uma mulher extraordinária, capaz de rir dos seus infortúnios e fazer com que você engula o seu sentimento de “pena” e o transforme em algo produtivo na sua vida.

Antes, incluía somente ela em minhas preces quando conversava com Deus; egoísta que sou, né Aline? Obrigado pela lição, agora incluo você e todos os TETRAPLÉGICOS do mundo em minhas orações.


Frank Oliveira


* Ashram: Segundo Jaya Lakshmi, jornalista, apresentadora e criadora do Programa Repórter Eco da TV Cultura, Ashram, na Índia, é um local onde pessoas que buscam uma vida saudável vivem segundo a filosofia Yogui. Orientados por um Guru que serve como ponte de religação com as forças da natureza, esses estudiosos recebem visitantes que queiram entrar em contato com energias positivas e aprender ensinamentos para a vida. É um lugar onde as pessoas vão buscar desenvolver o seu lado espiritual por meio de cursos sobre diversos temas que abordam conhecimentos sobre viver em equilíbrio.

Um comentário:

Andreza disse...

Um presente pode as vezes demorar para entendermos o significado...e com o tempo notamos que somos presenteados diariamente com palavras...Lendo uma das sabias palavras do Ghandi,imagino Fran que a sua amiga Aline possui uma forca inabalavel.Obrigada por compartilhar suas experiencias.Muita Luz...

Andreza

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