segunda-feira, janeiro 21, 2008

O Menino e o Balaio

Há tempos de fartura e tempos em que precisamos improvisar, suar a camisa e arranjarmos novas maneiras de extrair o sumo da vida. Nesses momentos em que a vida parece estar seca e que os pingos de chuva estão ausentes em nossa semeadura; ter uma imagem, uma inspiração, um ponto a seguir, nos ajuda a termos mais força e conseguir visualizar caminhos alternativos que só se fazem vistos quando há realmente coragem para ousar e trabalhar. Quando passo por esses momentos, e não foram poucas vezes, a imagem que vem a minha cabeça é a de um menino magrinho, carregando uma cesta gigante na cabeça, ganhando seu dinheirinho, enquanto carregava compras, frutas numa feira.

Conheci esse menino quando morava em Cajazeiras.

1987 foi um ano terrível para a minha família e ao mesmo tempo cheio de esperanças. Morávamos, meus irmãos e eu, com os meus avós na Paraíba, enquanto minha mãe tentava a sorte e emprego em São Paulo. Ela mal conseguia dinheiro para se sustentar em Sampa, então restava aos filhos, viverem com o que o avô plantava na lavoura.

Não é difícil viver só de milho e feijão de corda; impossível é viver sem chocolate e doce na boca. Para dar ao corpo, a doce experiência de um sorvete nas tardes à 40º graus na sombra, eu vendia e trocava gibis com meus amigos; idéia interessante, mas que me rendia apenas, de vez em quando, gibis novos e alguns centavos, que mal pagavam uma paçoca ou um copo de suco na escola. Esse menino fez algo diferente. Na primeira vez em que sua mãe lhe mandou alguns trocados, deixou o álbum de figurinhas de lado e comprou um balaio, um desses cestos de palha que se fabrica no Nordeste, e diante do espanto de todos que não entendiam o que um menino faria com um balaio, foi a feira livre da cidade e começou a oferecer seus serviços:

- Levo as suas compras em casa! – gritava o menino – Levo as suas frutas até o carro!

Lá vinha eu com as minhas revistinhas em baixo do braço, quando vi pela primeira vez, esse menino com o seu balaio. Fiquei curioso e o observei meio de canto de olho; confesso que achei que ele não ganharia nada com aquilo, afinal quem pagaria um menino para levar as compras até o carro, ainda mais numa cidade do interior nordestino? Mas para a minha surpresa, surgiu uma pessoa, duas, três e logo o menino estava correndo sem parar pelas ruas e pela feira, carregando compras e ganhando o seu dinheiro. Em principio, até nutri certa inveja, afinal esse menino se mostrava mais esperto que eu e em um dia, ganhara mais que um mês de revistinhas vendidas; mas os sentimentos daninhos se esvaíram quando ele me notou e veio em minha direção sorrindo.

- Vamos tomar um sorvete!

Idéias geniais para se fazer dinheiro surgem o tempo todo no mundo corporativo, na mídia e em negócios do mundo inteiro. Contudo, seja na Índia ou no Brasil, há meninos criativos que não se deixam abater pela pobreza e conseguem fazer o seu caminho para uma vida melhor, para um sonho realizado ou no caso desse menino, na direção de um sorvete devorado embaixo de uma árvore com o seu irmão invejoso.


Feliz Aniversário, Billy Boy!!!

Seu maninho Frank

Um comentário:

Anônimo disse...

Pô Frank, quando é que vou te ver no Jô contando como surgem tantas "crônicas"
legais?

E o Jô folheando teu livro com todas essas histórias da vida de todos nós...

Parabéns cara! Teus textos sempre trazendo mensagens de reflexão e inspiração!


Abraço,
Sergio

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