quarta-feira, janeiro 02, 2008

O Jihad do Coração

Kamel respirou fundo enquanto esperava o ônibus da linha 36 que ligava o centro ao subúrbio. Ele tinha pouco mais de dois minutos para decidir se realmente concluiria o que tinha que fazer. Fora treinado por meses para efetuar aquela operação, e tudo o que ele queria era estar em casa com a sua família, porém não havia retorno e o ticket para aquela condução era só de ida.

Seu pai fora um mártir e todos esperavam que ele seguisse o mesmo caminho, e não ficou surpreso quando recebeu o convite pouco depois de seu filho nascer, pois sabia que era apenas um questão de tempo para ele ser
”convocado” para lutar a Jihad * e defender sua terra contra o povo invasor.

Uma honra para qualquer homem em sua idade, glória para o nome da sua família e garantia de riqueza divina, mas algo o impedia de ficar contente com essa chance de morrer com honra: ele acreditava que violência só gerava violência, e enquanto o seu povo continuasse pensando assim, essa guerra jamais acabaria, mas quem era Kamel para dizer isso em publico, na certa
o chamariam de covarde.

Sua mulher foi a primeira pessoa a lhe congratular quando ele anunciou que havia recebido o convite e logo toda a sua família surgiu em apoio a causa, e o peso do ato de seu pai caiu em suas costas. Como ele poderia recusar ?

Contra a vontade, Kamel, ininciou seu treinamento. Dia após dia aprendia tudo sobre explosivos e não demorou muito para que ele soubesse onde e como agiria sem levantar suspeita. Festas e homenagens foram feitas em seu nome e lhe asseguraram que sua família receberia toda ajuda financeira possível, mas enquanto todos celebravam a glória de uma geração de heróis, seu coração apertava, afinal que tipo de glória e heroísmo pode um ser humano possuir para matar outras pessoas?

Noite passada, enquanto sua mulher dormia, ele rezou a Alah, pedindo que o profeta Mohamed, que seu nome seja honrado, lhe desse um sinal do que ele deveria fazer, pois mesmo sendo criado sob forte e rígida interpretação do alcorão, ele tinha sua própria idéia sobre a Jihad; ele pensava que a única
guerra santa que um homem deveria tomar parte, era a batalha contra as nuvens negras que vez ou outra, nublam o céu do coração, impedindo que se possa perceber a felicidade nas pequenas coisas, como o sorriso do seu
filhinho ou observar sua mulher dormindo.

Não houve respostas, nem sinal, mas a decisão fora tomada ali no ponto de ônibus, enquanto o ônibus estava prestes a chegar. Ele apenas orou em silêncio para que essa fosse a decisão certa.

Um minuto depois, mais uma bomba explodiu no centro de Jerusalém; dessa vez só houve uma vitima e tinha sido o próprio homem-bomba. O ônibus 36 estava parado do outro lado da rua, atrás da faixa da policia, junto com
centenas de curiosos que se espremiam para ver os restos do azarado homem-bomba que explodira antes de entrar no ônibus. Os experts disseram que foi falha na bomba, e assim também pensaram os lideres do Movimento de Libertação Palestino, que lamentaram o fracasso da missão. Ninguém jamais saberá o que ocorreu. Apesar de muito ser dito sobre esse caso nos jornais e rodas de bate papo, as perguntas continuam pelo ar : teria sido mesmo uma falha na bomba ou apenas a decisão de um homem de
explodir a si mesmo para poupar a vida de outros ?


Frank

* Jihad não significa literalmente ¨guerra santa ¨ como muitos a descrevem para justificar sangue derramado, e sim perseverança para alcançar um bom nível moral e se melhorar a cada dia sendo um bom ser humano seguindo os preceitos do alcorão. Essa “guerra justa¨ que propõe o alcorão pode ser interpretado em diversas formas, como é feito pelo homem em qualquer outro livro sagrado que foi e ainda continua sendo usado para dominar outros povos, pregando uma religião como sendo a única e verdadeira.
Imagem: Site www.uol.com.br

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