terça-feira, dezembro 18, 2007

O Menino Monstro ( Um Conto de Natal)

Todo adulto guarda na memória, uma estória de terror. Um daqueles casos inexplicáveis que aumenta mais em detalhes macabros, toda vez que é recontado. Esse caso ocorreu comigo no Natal de 1985 e toda vez que todos começam a enfeitar as suas casas com as cores de natal, inevitavelmente lembro do dia em que vi o Menino Monstro.

Eu tinha 12 anos, quando mudei para Cajazeiras, na Paraíba. Nessa idade, fazer parte de um grupo é uma questão de vida ou morte; ainda mais para um garoto que acabara de mudar para uma nova cidade e precisava ganhar a confiança dos “novos amigos”. Para ganhar o reconhecimento da turma, eu precisaria passar num teste de bravura e coragem. Se aceitasse, seria aceito por todos; se desistisse, o limbo juvenil me esperava.

O desafio era aterrorizador: eu teria que enfrentar o Menino Monstro.

Na rua da padaria do Janduí, havia uma casa que despertava a atenção de todos que passavam por lá. Em um dos quartos, havia grade na janela e de dentro do quarto, ouviam-se grunhidos e gritos terríveis que assustavam todo o bairro. Todas as pessoas que conhecia, evitavam passar por aquela rua; e os boatos corriam por todo o bairro que uma beata, devota de Frei Damião, tinha visto no menino as marcas do coisa ruim e ela mesmo havia declarado a todos – “ Esse menino só pode ser obra do cão!”

Eu só havia visto a casa uma vez e ainda lembrava dos gritos, por isso quando os meninos disseram que eu teria que entrar naquela casa; pensei seriamente em arrumar as minhas malas e voltar para a Brasília, onde o maior desafio que tinha enfrentado fora um campeonato de futebol de tampinha de garrafa. Ter uma vida social não valia o sacrifício, mas como a Eliana, a menina mais bonita do bairro, fazia parte do grupo e eu já não conseguia imaginar viver minha adolescência sem ela, aceitei o desafio.

Era noite, meus amigos ficaram vigiando a casa, até perceberem que os pais do Monstro haviam saído para a igreja. Por favor, levem em consideração que não éramos delinqüentes; a verdade é que escalar muros e invadir quintais eram uma arte a ser dominada quando se mora numa cidade do interior com quintais cheios de mangueiras, goiabeiras e pés tortos que miram no gol e acertam o quintal alheio. Pular o muro não foi sequer uma missão difícil, mas quando entrei na casa, confesso, que comecei a tremer sem parar. De acordo com os meninos, não bastava entrar na casa, eu precisava trazer uma prova que estivera cara-a-cara com o Menino Monstro e apesar de não ter a mais vaga idéia do que poderia ser utilizado como prova, invadi a casa pela porta do quintal ( por carência de ladrões, todos os habitantes da cidade, deixavam sempre abertas as portas e janelas de seus quintais)..

Um medo descomunal tomou conta de mim, á medida que eu entrava na casa. O suor caia da minha testa como se fosse as quedas do Iguaçu; a respiração estava ofegante e meu coração batia tão rapidamente, que senti que a qualquer momento ele sairia da minha boca e pularia o muro do quintal. Eu queria sair dali. Queria estar em casa, me preparando para a ceia de Natal e não naquele lugar enfrentando a morte. Queria fugir, mas havia Eliana e eu precisava continuar, não só por mim, mas por todos os adolescentes do mundo que passavam por aquele tipo de situação.

Então, ouvi a respiração do monstro bem perto de mim. Antes mesmo que eu pudesse pensar em fugir, notei uma sombra avançando sobre mim e me derrubando no chão.

- Deus me ajuda!!! – Gritei e fechei os olhos, esperando o pior. Nem tinha 13 anos ainda, queria tanto estar vivo para casar com a Eliana e para descobrir o que ocorreria com o Homem Aranha no seu próximo gibi. Imaginei cenas de filme de terror, as piores dores possíveis, mas nada ocorreu. Cauteloso, abri os olhos e vi á minha frente, apenas um menino um pouco maior que eu, que tinha Síndrome de Down. Ele tinha um dos olhares mais doces que já tinha visto na vida e aos invés de palavras distorcidas de filme de Exorcista, ouvi sua voz meiga dizendo – Você veio brincar comigo?

Em Brasília, era comum ver os meninos com Down nas ruas, tendo vidas saudáveis e até jogando bola com o resto da meninada na rua, mas aparentemente em Cajazeiras, as famílias escondiam seus “meninos especiais” do resto da sociedade como se eles fossem realmente monstros.

A verdade é que não havia nada de monstruoso com aquele menino e se havia algum horror; algo fora do normal, era a maneira como ele era tratado não só por toda a vizinhança, mas também por seus pais.

Enquanto eu encarava a minha própria ignorância; ele me foi trazendo carros sem rodas, bolas murchas e outros tantos brinquedos quebrados que ele costumava brincar e repetia sem parar “que bom que você veio brincar comigo”.

Não fiquei brincando com ele, até gostaria, pois fiquei sensibilizado até o nível máximo que uma criança de 12 anos consegue atingir; mas meus amigos e Eliana estavam lá fora e eu ainda tinha que os impressionar com a fantástica história de como usei todas as minhas forças para lutar com o Menino Monstro e sobrevivi para contar. Aquele carrinho sem rodas era a prova que eu precisava para me tornar o herói mais covarde que já surgiu nos contos de fada do sertão.

Na noite de Natal de 1985, eu consegui amigos, fama e a admiração da menina mais linda da rua, mas antes mesmo da missa do galo, olhei-me no espelho e me dei conta que no final era eu, o Menino Monstro.

Frank

Notas: Segue abaixo link de um site que explica muito sobre esses meninos especiais:
http://www.portalsindromededown.com/

10 comentários:

Anônimo disse...

hey monster boy!
Esse foi bacana.
Por onde anda voce?
Precisamos encontra logo
abraco

Amaury

Anônimo disse...

lindo,lindo,lindo!!!!


Michele Mocelin

Anônimo disse...

Oi Frank, adorei!!!!
O menino monstro não habita na alma somente dos adolescentes, mas na alma de todos nós: crianças, adolescentes, adultos e idosos.
Atendendo ao nosso instinto de defesa, às vezes, nosso monstrinho acaba se manifestando.
Controlar a sua aparição é um exercício difícil, às vezes penoso, mas vale a pena domá-lo para nos tornamos seres humanos melhores.
bjs
Norma

Anônimo disse...

APARECEU, hein ????!!!!!



Que saudades, Frank ! Por onde você anda? Soube que você está trabalhando em uma empresa alemã...



Vc vai ficar por aqui? Vamos marcar alguma coisa para fechar o ano !!!



Beijos



PS : linda a crônica !



Pati Beznos

Anônimo disse...

Frank,



Obrigada!



Digo: Muito BOMMMMMMMMM.



Boas festas!

Priscilla Mattos

Anônimo disse...

Oi
Frank
Obrigada pela mensagem, a crianças portadora de Sidrome de Dowm são muito especiais,k eu tenho uma filha portadora, e sei dizer tudo de bom que elas tem a oferecer.
Beijos um Feliz Natal cheio de Amor e paz para vc.
Muitas felicidades no ano que aproxima.
Angela camargo

Anônimo disse...

Grande Frank,

Fico muito feliz de ver o talento do amigo para com o texto apresentado.
Muito legal!!!

Um abraço
Ale

Anônimo disse...

È isso ai Frank.....

Fiquei sensibilizado com sua crônica, cara!

Todos nós passamos por esses rituais de passagem, mas, independente da
região do pais, ou mesmo dos paises entre si, sempre tem a ver com
transpor algum tipo de medo coletivo, e as vezes, "transpomos" até as
pessoas que estão em volta.

Lembro de que quando era menino, tive que brigar com todo mundo da minha
rua, para ser aceito, ai nossa turma acabava brigando com a turma da
outra rua, e esse negócio as vezes multiplicava e era bairro contra
bairro, mas sempre tinha alguém mais pacifico, que, infelizmente, a
turma pegava pra Cristo, e a gente fazia vista grossa e deixava a agua
rolar....

De repente isso deve estar na raiz da personalidade humana, sei lá!

Ainda bem, que isso parece que acabou nessa geração de hoje (algumas
exceçoes de vez em quando a gente ve por ai), mas no geral acho que
mudou um pouco, talvez pelo fato dos meninos (pelo menos os de cidades
grandes), não brincarem mais na rua, como na década de 70, que é o meu
caso, mas com certeza eles devem se degladiar, talvez agora
virtualmente, nas lan houses da vida, eu ainda sou do tempo dos
fliperamas rsssss.

No mais Feliz Natal pro cê cara!

Grande abraço a todos.

Guilherme Maia,
Belo Horizonte.

Neneca Barbosa - Um ser humano em evolução! disse...

Frank, lindo texto! Crianças especiais nos ensinam muito, eu que digo, pois tenho uma neta especial. Maravilhoso o seu trabalho. Parabéns!

be disse...

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