segunda-feira, novembro 12, 2007

Tonho e o Trem para as Estrelas

Tonho foi embora, como se despede qualquer outro homem que pega o trem para as estrelas no silêncio do subúrbio, no anonimato dos comuns.

Não foi herói, apenas um homem admirável que viveu bem seus 50 anos de vida. Formiguinha, ele viveu como eu e você, sem flashes, sem sair na Caras, apenas com dignidade e coragem de ser honesto num mundo cada vez mais corruptível.

Conheci o Antônio (todos o chamavam de "Tonho") em 1988, junto com a cidade de São Paulo; junto com o novo mundo que surgia no retrovisor dos meus 13 anos. Ele era o namorado da minha mãe, mulher corajosa, que se arriscava no amor, três anos depois que meu pai tomara o mesmo trem. Ele foi chegando com jeito e cuidado, sabia que pior que enfrentar pai armado; é ter que encarar quatro filhos saudosos de pai que partiu sem se despedir. Teve sucesso, mesmo sendo o único ser da terra que me chamava de Rivado ( meu odiado segundo nome – quem afinal criou o segundo nome?), tornou-se um amigo, nunca padrasto e foi ficando e construindo uma presença em nossas vidas.

Uma década depois, minha mãe e ele decidiram tomar rotas diferentes, mas ele continuou por um tempo em festas e aniversários, churrascos e batizados, até que foi sumindo e sua presença foi ficando cada vez mais rara. Tempos depois, descobrimos a verdade: ele lutava desesperadamente contra a Diabete.

A batalha estava sendo covarde e dolorosa. Lentamente e de forma impiedosa, a doença lhe tirou a visão, as pernas e a vontade de viver, até que por fim, lhe tirou o corpo.

Antes do seu embarque, minha mãe foi se despedir, com a minha irmã e meu tio. Meu irmão não quis ir, preferia guardar a imagem do Antônio sadio e feliz, não queria vê-lo moribundo e doente. Foi criticado; eu achei coerente. Cada um lida de um jeito quando está perdendo alguém que se ama.

Eu ainda aceno “goodbye”, pois apesar do seu embarque para as estrelas, ele continua no meu peito; lugar ideal para aqueles que estarão momentaneamente ausentes desse mundo e dos nossos olhos, mas que merecem mais do que pétalas murchas de lágrimas, disfarçadas de flores eternas em enterro.


Frank

Notas: A Diabete é uma doença crônica, caracterizada por uma disfunção no pâncreas. Existem vários tipos de diabete, mas os mais comuns são o tipo 1 e o tipo 2. Para saber mais detalhes, o site abaixo define bem a doença e as formas para combatê-la:
http://www.anad.org.br/html/dia_que_ediabetes.htm
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