terça-feira, maio 22, 2007

O Dentista e os Mantras

Os mantras são sons sutis que devidamente repetidos , juram todos que experimentam, levam o praticante a um bem estar tremendo ou a um processo de relaxamento profundo que muitas vezes acaba em estado alterado de consciência ( só quem provou, pode explicar o que isso significa ao certo, mas muitos dizem que voçê é capaz de ouvir o seu anjo, ver o Padre Cícero ou enxergar uma maneira de pagar as suas dívidas, sem usar o cheque especial). A palavra mantra vem do sânscrito e significa, literalmente, parar de pensar. Ao repetir (japa em sânscrito) esses mantras, esses sons produzem uma repercussão no seu corpo ou na alma. Os místicos e estudiosos de
religiões orientais de plantão defendem que os mantras são na verdade sons/vibrações cósmicas que despertam o divino dentro de cada um e os poderes latentes que cada ser humano têm. Há mantras de todos os tipos e para as mais diversas finalidades: arrumar marido, não chorar na frente do chefe, afastar vampiro e no meu caso, para dor de dente.

Algumas pessoas têm medo de espíritos, eu tinha medo de dentistas. Verdadeiro pavor do som daquela maquininha * que perfura nossos dentes como se abrisse um buraco em calçada; calafrios só de imaginar a boca aberta, o algodão, a mangueirinha que gruda no céu e no inferno da casa dos dentes. Já tinha se tornado uma fobia. Bastava colocar os pés em um consultório para começar meu ataque de pânico, ansiedade, suor frio e falta de ar.

Dor de dente não marca hora, chega de repente e quando percebemos já está instalada nos nervos, lembrando que fomos negligentes e não limpamos direito a casa. Então, lembramos do cara que nos fez prometer que voltaríamos no seu consultório de seis em seis meses ou procuramos desesperadamente algum amigo que indique uma dentista confiável, que não tenha parentesco com o Dr Menguele. Foi através da indicação do meu amigo Fernando Golfar que cheguei até o consultório do Dr Nelson. O consultório ficava na Brigadeiro com a Paulista, em Sampa, pertinho do meu serviço e eu já o conhecia dos cursos no IPPB, mas até então não sabia que ele era dentista.

Cheguei no consultório desconfiado. Já havia percorrido a via crucis da busca por um dentista. Estava com um canal mal feito que poderia tornar-se algo pior que uma dor latente, se não fosse tratado, junto com uma bolha de pus que assustou os dentistas que tinham me atendido anteriormente . O curioso é que na teoria esse canal já havia sido tratado. Os nervos deveriam ser finados e o dente estar mumificado. Fiz o tratamento na Inglaterra, quando morava por lá, mas trouxe um souvenir do sofrível sistema de saúde inglês comigo e precisava a todo custo desfazer-me dessa lembrança de viagem.

Logo de cara, percebi que Nelson seguia a mesma filosofia sacana espiritualista da qual faço parte. Doutrina secreta do “perco o amigo, mas não perco a piada”.

- Senta e relaxa. – ele disse com um sorriso sacana – Não vai doer nadinha.

Eu não sabia se ria ou chorava de ódio, eu estava ali aterrorizado por estar prestes a enfrentar a “maquininha” e aquele sujeito fazendo piadinha.

- Já vi que você está nervoso, vou por uma musiquinha de consultório dentista : o CD das 10 mais da Alfa Fm!

Não agüentei, cai na risada e quando a música começou, não era o Top Hits dos dentistas, e sim um belo mantra tibetano.

- Gostou, né? – disse ele rindo – Agora, vai abrindo ... – disse rindo.

A música era tudo o que eu precisava, mas o bom humor do Nelson e as risadas estavam realmente me fazendo ficar a vontade, quase com vontade de realmente estar ali. O medo foi diminuindo, a tensão desaparecendo. Fui trocando, pouco a pouco, o barulho da “máquininha” da minha fobia pelo som dos monges cantando Om Mani Padme Hum. Quem criou o mantra, jamais imaginou que ele pudesse ser usado para dor de dente e funcionou. Todo o stress fui sumindo e pude enfim, relaxar.

- Caramba, esse canal é pra inglês ver, não é? – ele disse vendo o estrago. Era mesmo. O tratamento tinha custado uma fortuna em Londres e agora eu descobria que não tinha sido feito apropriadamente. Além da dor, crescera também ao redor da gengiva essa bolha que me preocupava tanto.

- E a bolha? – perguntei.
- É uma fístula, Frank, não há o que temer, pelo menos, não ainda – disse rindo - Ela é apenas um sinal que há infecção nessa região. Daremos um jeito.
- Mas todos os últimos dentistas disseram que eu só me livraria através de cirurgia?
- Há fistulas e fistulas, não creio que o seu caso seja para cirurgia. Vamos limpar o canal, depois veremos o que ocorre com ela. Agora, abre a boquinha...

Fui relaxando, ao som dos mantras, depois de um certo tempo, nem parecia que eu estava fazendo tratamento dentário. Estava anestesiado, mas confesso que nem precisava, estava tão tranqüilo com a música e tão sereno, que quase me sentia confortável, como se estivesse na casa de um amigo, conversando, ouvindo música e dando risada.

- Caramba, Frank – disse ele a certa altura.
- O que foi? Problemas? – perguntei preocupado.
- Eu não sabia que você era devoto do Sai Baba! Cara, quanta saliva!!! – disse rindo. Era o Nelson em ação. E quem precisava de máquina do riso, com ele por perto.

O canal foi aberto, tratado e a bolha assustadora sumiu. Voltei outras vezes no consultório, e a recepção sempre foi a mesma : o bom humor e o profissionalismo do Nelson e as músicas maravilhosas dos CDs que ele usa para acalmar pacientes traumatizados como eu, que dão mais trabalho que criancinhas. O trauma se foi e eu poderia dizer que foram os mantras, mas devo essa ao Nelson, que além de meu dentista, agora se tornou também um grande amigo.

Ps: Segundo o Dr Nelson Uehara, o nome correto da “maquininha aterrorizadora” é caneta de alta-rotação.

Frank Oliveira

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