sábado, dezembro 23, 2006

Um Milagre Paulista

Cena 01: O plano

O plano era audacioso. Levar meus três sobrinhos, dois deles com seis anos e um com três anos, para o playland do shopping Tatuapé, zona leste paulista. O desafio estava em fazer isso sem carro e tendo que pegar ônibus e metro com a minha sobrinhada pestinha.

Estava em Sampa depois de dois anos fora do Brasil e hospedado na casa de minha mãe no Ipiranga. Sem carro, uma idéia simples como levar a molecada no shopping tomava rumos aventurescos à medida que entrava no ônibus com os sobrinhos.

Não tenho qualquer experiência com criança e tomei o desafio como um pré-treinamento para o moleque que vive me cobrando para trazê-lo ao mundo. E com nota dez consegui manter os moleques “quase” comportados em duas cadeiras, enquanto meu corpo impedia que os pestinhas saíssem de suas posições e corressem para o corredor.

Preocupado que alguém pudesse mexer na mochila as minhas costas e roubar a filmadora com a qual eu iria filmar à tarde com a criançada, tirei-a das costas e coloquei no colo de um dos meninos e voltei a cantar as musicas da Xuxa que todos sabiam até de trás pra frente.

Lá pelas bandas da Avenida do Estado, no ponto do metrô, desci com as crianças com o maior cuidado e consegui levá-las ate a estação, onde minha mulher, minha salvação, me esperava com nossa afilhada. Que alivio! Descobri por que Deus inventou esse troco de casal ao perceber que é o máximo compartilhar tarefas árduas como cuidar de pestinhas. Mais tarde, em frente ao shopping, abracei minha esposa e suspirei:

- Consegui! Você viu? Foi moleza!

- Frank, cadê a filmadora?

Frio na espinha, cara de bobo e estomâgo em turbulência.

- Esqueci no ônibus!

A filmadora estava na bolsa junto com minha agenda com todos os endereços e telefones, mais as fitas da minha viagem para o Egito, filmagem do natal com a família e festa com os Voadores e pessoal do IPPB. A filmadora era cara, mas as fitas insubstituíveis.

- Calma, Frank! – dizia minha esposa, tentando me acalmar- É só algo material ! Respira fundo! Tira esse peso da sua barriga.

- Cara, como eu sou burro. Como pude?

- Você estava com os três meninos, isso acontece…

Mas eu estava além dali, tentando imaginar tudo o que eu poderia fazer, mas àquela hora era tarde demais para localizar o ônibus, ponto final, motorista e cobrador. Olhei para as crianças que me olhavam curiosas e para minha esposa que mesmo diante do estúpido do marido tentava acalmá-lo e senti vergonha por me preocupar por algo material, tendo TANTO ao meu alcance.

E ela tinha razão, era só uma filmadora que essa hora já estava nas mãos de alguém sortudo o bastante para achar no ônibus o décimo quarto salário.

Segui com o plano original, mas por dentro não parava de repetir: “Porra que azar!”.

Minha mulher logo atrás, conversava com as crianças:

- Por que o tio esta triste, tia?

- Ele perdeu a filmadora, Lucas!

- E se ele não encontrar?

- Se ele não encontrar a gente perde a filmadora.

- Mas a gente vai continuar o nosso passeio?- Perguntou meu sobrinho já preocupado se iria perder o passeio por causo do descuido do tio.

- Claro, Lulu. – disse minha sobrinha Larissa. – Hoje e o nosso dia especial com o nosso tio!

Cena 02: A Segunda lição

No metro a caminho de casa, quase nem lembrava mais do que tinha ocorrido porém ao ver uma mochila nas costas de um cara, a lembrança e a sensação de ter feito caca, me entristeceu a cara. Minha sobrinha Larissa me olhou e disse:

- Tio, num fica triste, não. Garanto que o senhor ficaria mais triste se tivesse perdido um de nós.



Cena 03: Lamentações de fim de noite

“Puxa vida. Sempre devolvi tudo o que encontrei. Cadê essa tal da lei do retorno? Não que fizesse isso achando que um dia fariam o mesmo comigo, mas puxa vida, não merecia isso. Só sai com meus sobrinhos. Puta idéia bacana e altruísta, e levo essa bica do Universo. Bem que uma pessoa honesta poderia ter achado e… para de sonhar e dorme, rapa. Alem disso, não foi o universo que perdeu nada, foi você mesmo.”

Cena 04: O telefone toca e a lição da mamãe

Acordo pela manha e tomo café com pãozinho francês e novamente quase tenho um samadhi ao comer um pãozinho quentinho com manteiga com cafezinho brasileiro de alta qualidade e… pão de queijo! Que maravilha ser brasileiro. Nada nesse mundo e melhor que esse pãozinho de queijo saboros…

- Frank, telefone!- grita minha Mãe.

- Já vou!

Quem será essa hora? Corro para o telefone contrariado, e sorrio ao ouvir a voz da Gisela, minha amiga do IPPB.

- Oi Gi, como vai? Olha, obrigado pela recepção na sua casa. Aquela festa foi demais!

- Que nada, Fran. Foi um prazer, mas estou te ligando por outro motivo. A Suely dos Achados e Perdidos da estação Sé me ligou, achou a tua filmadora e entregaram na estação.

Alguém sabe descrever o que se sente quando a gente recebe um milagre? Sabe quando aquela chance em um milhão finalmente ocorre com você?

Pedi para Gi repetir, mal acreditando e só faltei entrar na linha e lhe dar um abraço.

Corri para a Sé e lá chegando, percebi que era noticia entre os funcionários.

- Então, você é o sortudo da filmadora! Olha é uma chance em um milhão. Isso nunca ocorreu por aqui.


Suely, funcionária do Metro há mais de vinte anos nunca tinha visto um caso como esse, E por uma dessas coincidências da vida, ela tinha um filho morando em Londres, e no final, parecíamos velhos amigos ao se despedir.

E lá fui eu pelas ruas de Sampa com a bolsa agarrada nos braços como se fosse o “precioso” do Senhor dos Anéis, agradecendo a Ganesha e a Padre Cícero pelo que ocorreu.

Quando cheguei em casa, e todos me congratularam pela sorte, minha mãe me falou algo bem interessante:

- Cuidado, filho! Não vai transformar esse milagre em algo comum. Esse é o problema que ocorre com todos quando Deus de alguma forma opera algo assim nas nossas vidas. Ficamos um dia ou dois maravilhados, dai depois nem damos mais importância ao ocorrido. Lembre-se desse dia e em como você presenciou esse milagre ocorrer, logo aqui em São Paulo. Mas vê se não esquece mais nada no ônibus, viu menino!
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