quarta-feira, novembro 08, 2006

A Vírgula e as Entrelinhas

A língua assim com a vida é um conjunto de possibilidades e interpretações. Bem vivida, a vida se torna um grande palco de aprendizado e satisfação. Bem escrita, a língua se torna um portal para que o leitor possa conhecer o ponto de vista do escritor ao mesmo tempo em que forma sua própria opinião. Durante a vida, construímos a nossa história com as nossas ações; é como se cada decisão fosse uma expressão de quem somos, do que acreditamos e do que queremos. Às vezes, certos atos constroem uma imagem negativa a nosso respeito. Esses atos atuam como vírgulas indevidamente inseridas na frase e que acabam mudando totalmente a visão que todos tinham da gente. Umberto Eco diz que “O texto é uma máquina preguiçosa que espera muita colaboração do leitor.” As pessoas e seus atos exigem o mesmo esforço de quem as observa e somente quem se dedicar a uma leitura mais profunda do contexto, perceberá que o conjunto da obra não pode ser prejudicado por uma vírgula.

X escrevia a história da sua vida e inseriu uma vírgula entre o sujeito e o verbo que mudou totalmente o resto da sua frase. Os nomes pouco importam, mas soube-se que X era amante de Y que era casado com Z. X também era casada e seu marido, W, nunca desconfiou que X era amante de Y. As coisas se complicaram quando X soube que estava grávida e como W tinha feito vasectomia e não podia ter mais filhos, ela procurou Y pedindo ajuda financeira para pagar um aborto. O resto foi manchete de jornal, alegria para os abutres de plantão que se deliciam lendo as descrições dos crimes de
periferia, mas é importante apenas dizer que após uma discussão envolvendo X, Y e Z, a novela mexicana virou tragédia grega. Y com uma arma na mão matou a amante e depois se matou. Z culpou a amante e W não culpou ninguém.

Repórteres e curiosos em geral lotaram o enterro de X numa tentativa de ouvir a opinião do marido traído, de colher algo que virasse manchete, de prolongar a história que era comentada em cada bar e padaria da Zona Leste de São Paulo. Perguntas foram feitas, insinuações foram arremessadas na direção do homem que só queria enterrar a esposa e continuar a sua vida e a educação dos dois filhos do casal.

Todos esperavam alguma reação, algum discurso repleto de ódio, rancor e mágoa.W então olhou para todos e disse: “Todos estão julgando X. Você não pode condenar a pessoa por uma ‘vírgula’.”

Todos olharam uns para os outros sem compreender a sentença que W acabava de expressar. Esperavam que a história continuasse da maneira como estava sendo conduzida por outros; não esperavam que W inserisse um elemento novo que
fora esquecido e que mudava totalmente o sentido da frase que o leitor esperava ler. Frase que acabara com reticências, e continua nos filhos que ele precisa criar e que devem estar orgulhosos do pai que tinha todos os motivos para odiar e pontuou mais uma frase com amor. Que os leitores que acompanhavam a história tenham aprendido a ler nas entrelinhas.


Frank Oliveira

3 comentários:

Anônimo disse...

Belíssimo texto, Frank. Beijos Amor e Luz NAN(Nancy/Ananda) Sat Chit Ananda

Da Lista do IPPB

Aleksandra Pereira disse...

Lindo texto realmente, Frank. Brincar com palavras e símbolos, as pontuações de uma história de amor e tragédia. Muito bom.

be disse...

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