quarta-feira, novembro 29, 2006

Palmadas e Palavras

Ela deveria ter 12 anos. Uniforme escolar, pele escura, olhos castanhos.
Seus cabelos negros trançados caiam pelo ombro, enquanto seu pai lhe batia na frente das suas amiguinhas da escola.

Um motivo banal: uma paquera de porta de colégio, pré-namoro adolescente, sonho de amor transformado em dor. Ele batia como se as pancadas tivessem o poder ausente das palavras. Como se a dor e a humilhação ensinasse mais rápido que o respeito e a compreensão.

Eu caminhava em direção ao ponto de ônibus, depois de um dia estressante de trabalho, quando vi a cena. Ninguém tem o direito de ensinar aos pais como educar seus filhos, mas todos nós temos o dever de agir quando alguém abusa do seu poder para intimidar, ferir e humilhar alguém que não pode se defender. Mesmo sabendo que poderia sobrar para mim, chamei o segurança da escola, e juntos, conseguimos separar os punhos do pai do corpo da menina, que chorava copiosamente, com a cicatriz da mão pesada do pai no seu rosto, nas suas costas, na sua alma.

- Solta!!! – exigia ele, tentando se soltar – Eu sou o pai dela!

Ele estava alterado e mesmo estando errado, não podia ser julgado por estranhos; mas precisava compreender que criança alguma deve apanhar, ainda mais na frente do grupo de amigos que, nessa fase, ela tenta tanto conquistar.

- Ela deveria estar estudando! – se explicou – Eu trabalho duro para ela ter uma educação decente e ela fica de namorico na porta da escola.

Educação decente começa em casa – pensei – afinal, violência é violência, não importa o motivo, não justifica a razão. Dois errados não fazem um certo. Falo isso não com a experiência de ser pai, mas com a lembrança de ter sido um filho que já apanhou demasiadamente do pai. Meu pai, assim como o pai da menina, não era muito bom com as palavras, por isso se expressava com as palmadas, que viravam pancadas, que se transformavam em surras. Duelo desigual, onde um Golias ameaça um Davi sem defesa, sem força para reagir.

Palmadas não deixam cicatrizes no corpo, mas calam fundo na alma, e se elas servem para alguma coisa, é para mostrar que violência não educa, apenas machuca e em muitos casos se transforma em trauma.

O pai foi acalmado. A mãe foi chamada e levou a menina pra casa. Tudo pareceu terminar bem. Baseado nisso, eu gostaria muito de terminar essa crônica com um final feliz, mas infelizmente, a violência que certos pais utilizam para educar e disciplinar seus filhos é ainda uma história que parece não ter fim.


Frank Oliveira

4 comentários:

Anônimo disse...

As vezes conversar nao adianta...tomo por mim...
Meu pai era do tipo que não gostava de bater, só batia em última
instância...
e fiz ele chegar a isto muitas vezes...

Pra vc ter idéia eu nunca escutei o meu pai e minha mae
discutirem...eles não se alteravam ou levantavam a voz...conversavam
sempre a noite no quarto.

Não consigo culpá-lo por nada...mereci cada uma delas,
chegou uma hora que estava tão sem-vergonha que falava pra ele bater
mais forte que ja não tava doendo...cheguei a apanhar de fio de luz...

falava pra ele - ta ficando fraco véio -

Mas era eu que provocava, até ele tomar alguma atitude...porém,
chegou um tempo que simplesmente perdeu a graça, lá pelos 15
anos...dai nunca mais apanhei...

Nem sempre a culpa é do mais forte.
E amo meu pai.

Abração
Emerson

Frank Oliveira disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Pessoal,


nunca apanhei fisicamente de meu pai...Mas já apanhei muito de suas
palavras.
Tanto que teve uma época que, em minha adolescencia, eu não podia houvir
alguem levantando a voz que (não importa quem ou onde fosse) eu já queria
partir pra porrada.


Violencia física é terrivel, mas também há quem sofre muito de tapas na
alma.


Abraços,
Thiago de Paula
From Voadores

be disse...

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