domingo, outubro 22, 2006

Herança Aborígine

Ao cair da noite, o chamado ecoa pelo ar. O ancião aborígine no alto da pedra vermelha gira um instrumento que ao entrar em contato com o ar emite um som que lembra o bater de asas de um pássaro gigante.

A celebração da Terra esta prestes a começar.

A fogueira ilumina o lugar, as sombras brincam nos rostos de cada homem que vai chegando e tomando sua posição no círculo ao redor do fogo. Com a pele tingida de branco e lanças torneadas com fitas vermelhas, os aborígines começam a dançar e a cantar. O ritmo é mantido pelas batidas dos pés, pelo digeridoo (um instrumento de sopro) e pelo canto que ora lembra o som das batidas do coração, ora parece ser a própria noite gritando: Estou chegando!

Não demora muito e todos parecem ter entrado numa espécie de transe.O ancião fala alguma prece em meio a música, deixando todos que estão assistindo a apresentação com uma estranha sensação que só pode ser descrita por: Uau!!!

- É tão místico, né meu bem? - Fala uma mulher do meu lado para o seu marido.

- Místico? - penso comigo – Não tem nada de místico não, dona. É só outra cultura que temos aqui nesse planeta, com uma historia única, recheada de significado, sabedoria e poesia, de um povo, que por uma razão ou outra, decidiu viver de uma maneira diferente da que escolhemos.

A cultura aborígine é uma das mais ricas e antigas do mundo e vivem por milênios na região, que hoje é conhecida como Austrália. Durante boa parte da sua convivência com os “descobridores”, eles foram massacrados, roubados e quase tiveram a sua cultura e fé destruída pela boa intenção “branca” de modernizar o primitivo, mas apesar de tudo, sua cultura ainda permanece forte e bela. Essa apresentação, junto com o lançamento de um filme, exposição fotográfica e palestras, tentam levar ao mundo um pouquinho da cultura e luta desse povo para permanecer na terra dos seus ancestrais.

O espetáculo continua, e a dança da terra termina de forma brusca dando lugar a uma fumaça que representa o mundo do sono. A Dança dos Sonhos esta prestes a começar. Eles dançam e na tela por detrás dos dançarinos, surgem imagens de pinturas lindíssimas que representam os sonhos e seus significados.

Para o aborígine, sonhar é uma oportunidade preciosa de conhecer sobre a própria vida e o papel de cada um no mundo; além de ser inspiração para poesias, músicas e todo tipo de arte. Desde criança, eles são educados a prestar atenção e tentar lembrar dos seus sonhos, por que ao sonhar, eles acreditam que o espírito de cada pessoa entra em outro mundo e pode conversar com seus antepassados.

No final da apresentação, as palavras do ancião foram traduzidas para todos:

“Para o nosso povo, a Terra é a base de nossa existência. Desde cedo, aprendemos que ninguém possui a terra, é ela quem nos possui. Há terra para todos, terra o bastante para vivermos em paz cultivando e cuidando dela, mas parece que todos os outros povos estão mais preocupados em possuir a terra dos outros do que cuidar da sua.

O sagrado não se encontra na crença que precisamos cuidar bem da terra e um do outro, mas sim na própria ação.

Nosso povo há séculos vem passando de pai para filho a tradição do bem cuidar do nosso lar. Essa tradição que é a nossa herança. Essa herança não é só para os nossos filhos, mas pra todos aqueles que se interessem pela nossa cultura.

Ao cuidar da terra ou um do outro o efeito é como o vôo de um bumerangue, pode demorar, mas ele sempre volta para você.”

Todos se levantam e aplaudem com entusiasmo. O ancião sorri junto com os dançarinos. Nos seus olhos um brilho de quem sabe que apesar da maioria das pessoas estarem ali só pelo exótico de observar uma apresentação como aquela, outra boa parte conseguiu enxergar a beleza e sabedoria por trás do diferente. O recado estava dado.

Setembro 2002

Frank Oliveira
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