terça-feira, julho 25, 2006

Passaporte

PASSAPORTE

Jamais achei que meu passaporte valesse muita coisa. Viajante, sempre tive
que lutar para conquistar vistos, permissões e autorizações para ir aonde eu
sempre quis.

Confesso que sonhava com passaporte europeu ou americano, ou qualquer
passaporte que não exigisse burocracia, que pulasse fila, que evitasse a
cara feia e desconfiada de agentes e fiscais da imigração, que sempre olham
desconfiados para nordestinos vagamundos como eu, esses brasileirinhos que
insistem em conhecer o planeta e suas maravilhosas curvas e contos. Contudo,
mesmo não abrindo facilmente as portas dos portos e as janelas que escondem
novos horizontes, meu “verdinho” sempre me levou aos quatro cantos do
mundo; da Paraíba à Paris, de Londres ao Egito, da Índia ao Líbano...
Líbano...

Abro o jornal e vejo a imagem da mãe que chora sangue, segurando a filha.
Elas foram impedidas de entrar no navio, na caravana dos resgatados, no
avião de socorro, por não portarem passaporte estrangeiro.

Nesse instante, o meu coração se abre e sintonizo algo, além do espaço:



“Sou essa mulher, e de meus olhos escorrem lágrimas de sangue. Seguro minha
filha sob o véu negro que cobre o meu corpo, como se fosse uma tatuagem que
representa o próprio Islã. Não penso em Israel, nem muito menos no
Hizbollah; não penso no Líbano destruído ou no número de feridos; só quero
salvar minha filha, escapar com vida, sair dali.

Desesperada, tento embarcar com um grupo de brasileiros, mas não consigo,
não tenho dupla cidadania. Nem o português que arranho, afinal boa parte da
minha família vive em São Paulo, consegue me ajudar. Se ao menos tivesse
cidadania estrangeira nem precisaria ser americana ou européia, nem
precisaria ser brasileira, qualquer passaporte ajudaria. Qualquer documento
nos levaria além das bordas do lugar que fora o meu lar e que agora virara
prisão. Qualquer passaporte nos levaria para além das bordas, para lugares
que não são bombardeados, que não explodem inocentes, que não exigem a vida
de quinhentos em nome de dois. Qualquer passaporte me salvaria, qualquer
passaporte salvaria a minha filha, qualquer passaporte que não o meu.”



Volto a mim e não consigo esquecer a foto no jornal, não consigo esquecer os
seus rostos. Elas são pedacinhos de mim, pedacinhos que choram em algum
lugar, enquanto sob suas cabeças, caem as bombas de ignorância.

Jamais imaginei que o passaporte brasileiro valesse tanto. Jamais imaginei
que meu passaporte valesse vida.



São Paulo, 25 de Julho 2006.

5 comentários:

Giulia disse...

Gostei demais dessa sua crônica, não porque atual, não porque fala da guerra (essa excrescência), mas porque diz de amor... Seu estilo de escrita me agrada muito - tenho-o já entre os meus favoritos, para leitura com mais vagar. Abraços interioranos de SP

Anônimo disse...

O mais triste de tudo isso é que existem milhares de inocentes, principalmente crianças, que se não são fisicamente mortas, têm suas almas dilaceradas pelos horrores desta guerra sem fim. Belo texto! Sally.

Anônimo disse...

Muito bom, Frank, muito bom.
Posso passar adiante?
Clinete
Santiago´s list

Anônimo disse...

Parabens por conseguir expressar tão bem seus sentimentos, arrancou-me lagrimas!
A mensagem que vc me tranasmitiu se resume em uma unica pergunta: Como podemos
viver tantas inversões de valores e no final sobreviver-mos a elas, com espirito
sadio? Tendo fé, caridade, amor cristão e Deus no coração
Um forte abraço e
Bom Caminho

Roseli Vieira
Santiago´s list

Anônimo disse...

Cara, vc me fez chorar...
bjs
Lena

Santiago´s list

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