domingo, abril 16, 2006

Não Precisamos de Outro Judas

Saiu do trabalho mais cedo, pois queria ser o primeiro a chegar ao local onde a moça, assassina confessa dos pais, estava sendo interrogada. Conhecia toda a sua trajetória, sua vida, acompanhou tudo pela TV, pelo rádio e queria vê-la ao vivo, ela parecia ser cruel demais para ser real. Na verdade, ele alimentava essa curiosidade misturada com um desejo de vingança: se os guardas dessem chance, e se ela fosse linchada pelo povo, a primeira pancada partiria dele.

Não que fosse um homem violento, mas acreditava que aquela menina representava o pior que a humanidade poderia produzir. “Ela merece ser exterminada, ser colocada numa prisão e definhar aos poucos”, pensou enquanto olhava para o relógio. “Tudo seria mais fácil se tivéssemos pena de morte por aqui. Mas somos muito sensíveis com esses monstros, por isso há tantos por aí!”.

Por um momento, seu plano mental de extermínio de todos os assassinos confessos deu lugar a imagens de ovos de páscoa. Era quase Sexta-Feira Santa e ele deveria estar aproveitando o seu tempo livre para comprar os ovos que seus filhos estavam esperando ganhar, mas o chocolate poderia esperar, afinal não era todo dia que aparecia um Judas em carne e osso.

“ Sim, ela era um Judas” , ele pensava enquanto olhava pela janela do ônibus pessoas caminhando e fazendo filas nas lojas de chocolate. “ Traíra seus progenitores e os entregara à morte, por um punhado de moedas; merecia ser enforcada, apedrejada e ser lembrada dali em diante como “A Judas”.

“Sim, A Judas “, refletiu, olhando para o jornal, onde as manchetes eram a prisão da assassina e a descoberta dos pergaminhos sobre Judas. De acordo com o jornal, a fama do Iscariotes já não era a mesma, depois que apareceu o Evangelho de Judas. A discussão da semana era a inocência do apóstolo traidor e a defesa que ele não fora exatamente o vilão que a Bíblia tanto pregara. “ Só falta agora aparecer alguém proibindo os bonecos do Judas e a tradição de espancá-lo”, concluiu.

“Onde já se viu”? – ponderou com indignação – “As coisas são o que são e devem permanecer assim. Precisamos do Judas como ele é. Já pensou como seria a Páscoa sem ovos de chocolate e peixe? Totalmente sem graça! Mesma coisa sem o Judas traidor. Precisamos vingar Jesus, por isso a gente desse o cacete nos bonecos do Judas pelo mundo afora”.

Perdido em seus pensamentos, ele nem percebeu quando uma velhinha sentou ao seu lado no ônibus. Ela carregava o mesmo jornal que ele possuía e tinha lido.

- Boa Noite! – ela o saudou, ele respondeu com um sorriso. Não queria puxar assunto; estava ocupado com suas idéias e pensamentos, mas a velhinha insistiu no papo:

- Você acredita nesse novo Evangelho? – perguntou , olhando a manchete do jornal que ele segurava.

- Claro que não! – ele respondeu sem pensar duas vezes - Ridículo, não? Só falta alguém aparecer com um outro evangelho dizendo que Jesus não morreu na cruz.

- Não sei, não filho! E se estivermos enganados sobre Judas. Já pensou que injustiça...

- Mas não estamos! A igreja disse que esses Evangelhos são os tais apócrifos que não merecem nossa atenção!

- Sim, eu sei, mas já pensou se a igreja estiver errada quanto à isso; afinal os Evangelhos oficiais foram escolhidos há séculos. E se as pessoas que selecionaram os textos que entraram na Bíblia tivessem na época outros interesses que não a verdade? Imagina... coitado do Judas. Será que é muito tarde para repararmos isso?

- Ele não merece o nosso perdão. É um traidor. Ele é como essa tal de Suzane, eles merecem arder no mármore do inferno.

- Filho tenha cuidado com o que você vê na TV ou lê nos jornais. A gente, às vezes, incorpora as idéias e julgamentos dos outros e quando menos percebe, passa a defendê-los como se fossem as nossas próprias idéias. Essa pobre moça não merece ser a nossa válvula de escape.

- Como não? A senhora viu o que ela fez? Ela matou os pais e foi ao motel com o namorado.

- A questão não é o que ela fez e sim como reagimos a isso. É muito triste toda essa raiva coletiva sendo acumulada e canalizada em direção a essa moça. Ela está sendo malhada como malhamos o Judas num dia que deveria ser de paz e reflexão. Imagina que nesse momento enquanto essa moça esta sendo mantida na delegacia, há uma multidão querendo linchá-la. Matá-la não trará seus pais de volta, só servirá para mostrar que não mudamos muito desde a época de Cristo. Continuamos agindo como se fossemos um bando de abutres esperando o primeiro erro, a primeira vítima, a primeira carcaça e se há algo que deveríamos lembrar na Páscoa é o perdão. Será que temos o direito de julgá-la e queimá-la em praça pública, por ela representar o que abominamos? Não estaríamos com isso, nos tornando piores que ela?

Aquele papo com a velhinha o estava incomodando. Ele não se sentia enganado e nem tão pouco manipulado pela mídia. Porém, ele começava a sentir vergonha de estar indo para aquele lugar e estar agindo de forma oposta ao que Jesus ensinara. A velhinha tinha razão sobre essa questão do perdão na Páscoa.

- Essa assassina não pode ser tratada com tanta consideração - disse ainda tentando defender o seu direito de ir até o lugar - Até entendo que podemos estar errados quanto ao Judas, mas ela confessou o crime. Não há duvidas sobre o que ela fez.

- Por não haver dúvidas sobre o que ela fez é que devemos evitar ao máximo piorar ainda mais a situação dela com o nosso ódio. Quando sentimos todo essa raiva por essa moça nos tornamos cúmplices dessa onda de violência que começou com o crime e que continua com a cobertura excessiva da imprensa e o desejo de vingança coletivo. Filho, pense a respeito e faça a sua opção. Eu pessoalmente acredito que existem outras formas de canalizarmos as nossas frustrações e o nosso desejo de ver no outro tudo aquilo que não querermos nos tornar. Definitivamente não precisamos de outro Judas.

Frank
16 de Abril de 2006

3 comentários:

Anônimo disse...

Frank,

I belive that all this "Fuzuê" over this murder, it's only for take out the
focus from our politicians matters.

We don't need another Judas, we just have too much.


"TO ERR IS HUMAN, TO FORGIVE IS DIVINE!"


BR


Edgar

Anônimo disse...

Auri e Frank, é um prazer enorme poder compartilhar um pouquinho destes textos que me enviam. Me faz pensar e refletir sobre muita coisa.
Se conseguíssemos pensar mais em fazer o bem do que o mal, com certeza o mundo estaria melhor.

grata

fiquem em paz.

Dani

OLIVEIRA AURICELIA ceucintilante
escreveu:

Mais um texto quentinho feito pelo Frank (meu maridinho), espero que gostem
e que reflitam a respeito. Beijinho...Auricelia


Não Precisamos de Outro Judas

X disse...

Li o email das cavernas na voadores, gostei e vim conferir o seu blog.
Parabéns!
Criatividade e perspicácia no cruzamento das informações, que na verdade vai bem de acordo com o que eu acredito: a história é sempre a mesma. Tudo que acontece é uma versão do que já aconteceu. Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades.

Enfim, obrigado pelas mensagens. A gente se esbarra!

Abraço

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