segunda-feira, janeiro 09, 2006

Por onde andará o Senhor do Sono?

Fui dormir, sem falar com ela.

Podia falar alguma coisa, quebrar o gelo; mas havíamos brigado; e de acordo
com o manual do casamento, artigo 42, do parágrafo 6; depois de uma
discussão noturna, cabe ao marido e a mulher manter silencio e ignorar a
presença do outro, mesmo estando no mesmo cômodo, até a manhã seguinte,
quando um dos dois levantará a bandeira branca e pedirá desculpas.

Mas será que não seria melhor pedir desculpas agora mesmo? Pra que esperar
até amanhã, se podíamos fazer as pazes naquele instante e dormir tranqüilo,
voando pelo mundo do sono como um passarinho?

Não!!!

A culpa foi dela. Ou será que foi minha? Afinal, quem começara aquela
discussão boba que terminara em “vou ficar de mal”? Quer saber, não importa
quem começou; eu é que não vou pedir desculpas, mas porque ela continua em
silencio?

Cadê meu sono? Onde esta o Senhor do Sono que joga areia nos nossos olhos e
nos leva para o outro mundo? Será que ele está esperando que façamos as
pazes para nos convidar a ninar? Pode esperar sentado com seu saquinho de
grão de areia, pois se depender de mim, nenhum dos dois vai dormir essa
noite.

Mas porque não consigo esquecer essa discussão estúpida que não passa de um
grão de terra no terreno do nosso amor?

O que será que pesa mais nos ombros? O cansaço de um dia que se foi ou a
mesquinharia do orgulho ferido?

Cala a boca, Consciência!!!Estou de mal e ponto final.

São duas da manha e há um abismo separando eu e ela. Um cânion dividindo os
dois lados da cama. Não sou o Senhor Elástico, mas meu braço se estica alem
do meu orgulho e começa a atravessar o abismo e meu corpo se aproxima do
dela. Nossos corpos se tocam e o silencio é rompido pelo barulho do meu ego
quebrado:
“Meu amor – digo eu – já é dia no Japão. Como se pede desculpas em japonês
mesmo?”

02 de Agosto de 2005
Frank

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