quarta-feira, dezembro 21, 2005

4 Sobrinhos do Francisco (um Conto de Natal)

Ainda sou filho, mas ando fazendo estágio para ser pai. Como sem querer, acabei ficando para titio; o que não me falta é sobrinho. São cinco: Lucas, Larissa, Marcus, Vitor e Guilherme. Com os quatro primeiros, me aventurei numa jornada: assistir o último filme do Harry Potter.

Queria ter esse momento tio-sobrinho, mas para ir ao cinema era uma epopéia. Não tenho carro, não dirijo e não tenho lá muita prática em administrar uma galerinha em que o mais velho tem nove anos, mas tenho experiência em gerenciar conflito, supervisionar equipe e foi assim que me preparei para essa tarefa. Encarei tudo como um grande desafio e embarquei nessa jornada, passando na casa de cada um e os reunindo.

A bagunça era geral, a gritaria intensa. Eu no meio da bagunça, tentava em vão manter todos comportados. Nada como uma experiência como essa para começar a ter duvidas quanto a querer ser pai mesmo. Porem, embora eu estivesse nervoso e tenso, as crianças estavam se divertindo.

- Tio, relaxa! – disse Larissa – Vamos obedecer ao senhor direitinho!

Devia estar dando muito na cara que estava tenso. Mas mesmo embora eu esperasse o pior daquela trupe, tudo correu muito bem. Brincaram como qualquer criança deve brincar. Gritaram e bagunçaram como qualquer um na idade deles faria. Eu é que parecia não estar aproveitando.

O que era uma pena. Eu havia pedido a Deus pra estar ali; para ter essa oportunidade de participar da vida deles. Tendo vivido por quatro anos em Londres, não os vi crescendo, nem pude levá-los ao cinema; não tive tempo de ser tio e agora que tinha a chance nas mãos, estava perdendo o melhor que ela poderia me oferecer que era contentamento. Estava muito preocupado que algo pudesse acontecer com eles, que alguma coisa desse errado ou sei lá mais o quê.

Foi então, no meio desses pensamentos e preocupações que lembrei que já fui sobrinho saindo com o tio pra ir ao cinema.

Tinha sete anos e lembro que pedi ao Papai Noel para ver o ET. Não, não pedi ao bom velhinho, um contato de terceiro grau com alienígenas, apenas queria ver o filme que todos os meus amiguinhos já tinham assistido. Na época, meus pais mal sabiam o que era cinema; alem disso custava muito caro. Mas o presente veio com o meu tio, que ao invés de me dar brinquedo ou roupa de natal, levou meus irmãos e eu para o cinema. ET já não estava mais em cartaz, mas assistimos os Saltimbancos Trapalhões. Ainda hoje lembro da sensação de ver pela primeira vez um filme na telona, a magia da imagem sendo projetada e os meus olhos mergulhando naquele mundo maravilhoso. Porem o que jamais esqueci é que aquela noite era a primeira vez que saiamos sem os nossos pais e isso para um bando de crianças era uma aventura em que tudo podia acontecer. Um verdadeiro presente do Tio Noel.

De alguma forma, eu havia virado meu tio e meus sobrinhos eram meus irmãos e eu. Eles já haviam ido ao cinema antes com seus pais, mas era diferente com o tio, eles podiam ser eles mesmos, poderiam se comportar como crianças deveriam se comportar. Eu é que estava bancando o pai e se esquecendo de ser o tio que eles mereciam ter. Assim, deixando o gerenciador de conflitos de lado e o controlador, diverti-me tanto quanto eles.

Brinquei, participei de suas brincadeiras, falei como eles falavam e com isso me integrei ao mundo que eles criavam sem deixar o adulto atrapalhar.

O trabalho foi virando aventura, a aventura virando diversão e finalmente entendi que não dá pra prever o que acontecerá em seguida ou qual será o próximo passo que eles irão dar. Numa ocasião como esta ou em qualquer situação na vida é necessário deixar rolar; aceitar a vida acontecer. Isso não significa ser negligente ou irresponsável, significa apenas que não podemos controlar tudo ao nosso redor e é justamente por isso que a vida é tão mágica e surpreendente.

No passeio com o tio, assistir ao filme do bruxinho inglês ou comer no Mcdonalds, era apenas parte da diversão de estar todos reunidos. Pra mim, mais importante que ter todos eles sob o controle, era poder estar lá, vivenciando aquilo.

No fim da tarde, eles nem quiseram ver o Papai Noel na pracinha do Shopping Center. Vai ver, já passaram da idade de acreditar no bom velhinho ou eles já estavam recebendo o presente que haviam pedido: uma tarde divertida com o tio.


Feliz Natal a todos

Frank

21 de Dezembro de 2005
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