quarta-feira, outubro 26, 2005

Força Verde

Desligou a moto-serra por um momento e olhou pra árvore. Ela era gigantesca e parecia quase tocar o céu. Tinha uma beleza singular e ele teve a impressão que a árvore realmente era viva como diziam esses “doutores” do sul do país que volta e meia surgiam pelas redondezas para protestar ou tentar ensinar o povo daquela região como viver. O que eles sabiam sobre a vida dos ribeirinhos? O que eles, tendo crescido com todo o conforto da cidade grande, sabiam sobre alimentar dez bocas e sobreviver numa terra de ninguém?

Talvez soubessem uma coisa e outra sobre as árvores, mas não tinham direito de aparecer ali para atrapalhar a vida de quem tentava sobreviver no Amazonas. As coisas não estavam tão bem, alias, nunca estiveram; mas a seca tinha matado os peixes, a falta de chuva destruiu a lavoura e só restava o trabalho com a moto serra. A empresa do sul do país pagava mais por uma árvore caída que toda a pescaria de um mês.

Mas havia algo errado com ele, por que não conseguia ligar a moto serra? Era como se ele estivesse prestes a matar um bicho. Havia certa hesitação e havia tanto trabalho a ser feito, mas ele não parava de olhar para aquela árvore; era como se ela o tivesse enfeitiçado.

Por um breve instante, sua mente expandiu para alem do seu corpo, era como se ele voasse alem do tempo e do espaço, sentindo que o verde o envolvia por completo. Viu a floresta por cima e viu as árvores sendo arrancadas do solo, uma por uma.

Como se avançasse no tempo, não viu mais a floresta, mas um cerrado no lugar, com árvores rasteiras e arbustos. O Rio Amazonas tinham dado lugar a um córrego pequeno que esperava ansioso pelas chuvas que agora só caiam no inverno. De alguma forma, ele sabia que cada árvore derrubada influenciara na transformação da floresta em cerrado.

Lagrimas caiam do seu rosto ao compreender finalmente o papel do povo ribeirinho. Eles estavam ali para mostrar o mundo que era possível viver na floresta sem destruí-la. Era possível viver em harmonia com a natureza. Para viver na terra, os seres humanos precisavam compreender que destruir o meio ambiente era assinar sua própria carta de extinção. Ele tinha visto isso no cerrado deserto ocupando o lugar da floresta recheada de vida.

A sensação de pertencer a tudo se foi quando ele ouviu o grito do supervisor da empresa de madeira gritando seu nome:

- Acorda, Sebastião! Temos trabalho a fazer!

Tendo despertado do transe, ele olhou uma vez mais a árvore; mas em seguida ligou a moto serra e começou seu trabalho. Toda aquela "viagem" devia ter sido causada pelo calor, ele pensou, afinal algumas árvores não fariam diferença naquele oceano verde que era o Amazonas; alem disso, dez bocas o esperavam aquela noite e ele não as desapontariam.


Frank
26 de Outubro de 2005

3 comentários:

Anônimo disse...

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