quinta-feira, outubro 27, 2005

Caçadores de Baleias

A bordo de um antigo baleeiro, os caçadores rumam para o alto-mar. Olhos
atentos escaneiam a água em busca do menor sinal daquela que e considerada o
maior mamífero do planeta. Abaixo do leme, o comandante conduz o barco com
um olho na tela do computador de bordo que filtra o mar ao nosso redor
tentando identificar a aproximação da Rainha do Oceano. Porem os arpoes e
armas foram substituídos por câmeras fotográficas e filmadoras e os novos
Caçadores não buscavam uma presa e sim a experiência de ver uma baleia.

- A primeira vez que a gente vê uma baleia, uma sensação de paz toma de
conta da gente, que e difícil por em palavras - disse uma senhora ao meu
lado. Ela era veterana desse tipo de turismo. Junto com o marido, um sujeito
mal-humorado ao seu lado, eles já tinham visto centenas de baleias por todo
o mundo. - Diante da visão de uma baleia a gente descobre o quanto somos
pequeninos.

- Pequeninos e vulneráveis- disse o marido- só espero que a baleia não
resolva brincar com o nosso barco. Essas águas geladas podem nos matar em
minutos.

Por um momento toda a mágica de procurar por baleias deu lugar a um
principio de pânico. Comecei a ponderar se realmente tinha sido uma boa
idéia ir ate ali. Eu não sabia nadar e seu soubesse ainda contar, o numero
de salva-vidas a bordo não era compatível com o numero de turistas. Morrer
congelado não era exatamente o meio de transporte que eu queria utilizar
para o outro lado ( como se eu pudesse escolher ).
Mas acabei chegando à conclusão que meu medo era um tanto infundavel, uma
vez que aquele barco fazia aquele passeio por anos.

- Eu costumava caçar baleias - disse o comandante, um sujeito franzino, com
barba feita e cabelos curtos, que não lembrava nada o estereotipo do
comandante de barco tipo Capitão Nemo – Minha vila costumava viver da pesca
da baleia. Essa era a nossa principal fonte de renda. Quando o governo
proibiu a caca, achávamos que iríamos passar por sérios problemas
financeiros, ate que o primeiro turista chegou e depois, eles começaram a
chegar aos montes, dispostos a pagar mais para ver as baleias, do que
ganhávamos com a caca dela.

Enquanto ele falava, lembrei de como o turismo pode ser bom para os lugares
visitados, se bem controlado e organizado. Lembrei também que toda vez que
lembrava das pessoas que caçavam baleias, os via como monstros insensíveis e
nunca como gente ganhando a vida. E claro que isso não justifica em nada a
matança de baleias que ate os anos 80 era tão popular que virou ate esporte,
em que milionários tiravam fotos ao lado do corpo do animal para mostrar aos
amigos como troféu, assim como provavelmente fizeram os seus tataravôs com
os animais da África. A caça era tão descontrolada que uma palavra logo
ficou associada a caca desses animais marinhos : Extinção.

Hoje em dias, boa parte dos paises no mundo inteiro assinaram o embargo a
caca a baleia, mas há paises como o Japão e a Islândia, que ainda as caçam,
sem contar inúmeros baleeiros que ainda cruzam o mar em busca da carne desse
mamífero que tem custos astronômicos do mercado negro.Caca patrocinada por
pessoas que ainda insistem no consumo de carne, óleo e todo tipo de produto
extraído das baleias. Porem, vendo aqueles novos caçadores, fez com que eu
sentisse esperança que a raça humana ainda não estava totalmente perdida na
ignorância. E claro que eu não estava tão otimista assim que alguém naquele
barco veria uma baleia tão cedo.

- Uma vez ficamos semanas tentando e nada.- disse o sujeito novamente,
jogando água fria nas nossas expectativas. Preferi fingir que ele falava
sobre a sua vida sexual e tentei ao maximo me afastar do casal e baixinho
rezei a Iemanjá que mandasse um de seus anjos do mar vir nos saudar.

Enquanto eu filosofava sobre as gotinhas do mar que pipocavam pelo ar,
olhando para baixo e se dando conta que são oceano; notei que toda a galera
foi para um lado do barco e o comandante gritou: Se não for um submarino, só
pode ser uma baleia!

Corri para tirar a minha foto, mas uma onda de pessoas impediam a minha
visão. Quando finalmente consegui atravessar a barreira humana e ter um
pedacinho da visão do mar, ouvi o comandante gritar de novo: Do outro lado!

Do outro lado, do lado em que eu estava, surgiu a Senhora do Mar. Enquanto
tentava novamente atravessar a muralha de gente, me xingava por ser tão
baixinho e por ter largado o meu lugarzinho. Mas lutei e mergulhei no meio
daquela gente, e quando finalmente consegui passar por outro lado, só deu
tempo de ver o rabinho da baleia acenando adeus. Tarde demais.

Ela não voltou à superfície novamente e eu não tinha conseguido registrar o
meu momento, mas eu pude ver ao menos ela se despedindo. Não era exatamente
o que eu esperava, mas ao menos eu sabia que elas ainda estavam por lá. Eu
sabia que elas ainda não tinham desistido de viver no mesmo mundo que os
homens.

Enquanto o barco retornava ao porto, tentei ao maximo fixar na memória a
minha experiência. No fim, a senhora no barco estava certa quando disse que
a primeira vez que a gente vê uma baleia sente algo indescritível. Eu que só
tinha visto um pouquinho já estava tão feliz, imagina o que sentiria se a
visse por inteira livre no mar.

Só espero que meus filhos possam também brincar de caçadores de baleias um
dia.


Frank
04 julho de 2004

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Notas:
Para saber um pouco mais sobre a situacao das baleias, ha um otimo site para
pesquisa:
http://www.pick-upau.com.br/mundo/baleias/baleias.htm

Enquanto relia os escritos acima, lembrei de um texto que escrevi sobre as
baleias em 2002. Acredito que os escritos abaixo completam essa pequena
homenagem a esses anjos maritimos, parceiros nossos de evolucao nesse
planeta azul.


Mãe do Mar

Você já ouviu o seu canto?
Majestosa, voa no oceano emitindo
os mais belos cânticos
Cada movimento seu e poesia
Cada som que produz ecoa pela imensidão inspirando
poetas, músicos e escritores a tentar descrever a sua
canção.

Você já ouviu o seu canto?
E percebeu como o nosso coração bate mais forte e os
nossos olhos se enchem d`água.
Alguns dirão que elas são apenas animais, outros dirão
que elas são nossas irmãs em evolução, mas para elas
pouco importa a opinião dos homens, pois continuarão
voando pelo azul infinito do seu mundo e cantando pelo
simples prazer de viver, lembrando ao homem que ha. muito
o que aprender com aqueles que chamamos de "animais".


Somos Todos um Só
Frank
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