segunda-feira, outubro 03, 2005

Armado de Risada

Diante de uma arma apontada para a minha cabeça, senti o quanto frágil era a
minha vida e o quanto eu tinha medo de morrer. Anos e anos de estudos
espirituais eram folhas de outono caídas na estação do meu medo.

Tudo tinha cara de primeira vez. Meu algoz tremia e não era pelo frio,
parecia mesmo que ele nunca tinha roubado alguém à mão armada; eu,por outro lado,nunca tinha sido roubado antes com uma arma tão próxima,tão perto que
dava para ver o cano brilhando, as curvas do revolver novo.

Dizem que você vê toda a sua vida passar a sua frente, quando se esta cara a
cara com a morte; eu vi a vida que não viveria; o próximo segundo que aquela
arma me roubaria se fosse disparada tão perto.

Ele só queria minha carteira, eu só queria continuar vivo. Ele tremia e eu
continuava orando aos céus para que ele não abrisse a carteira, pois veria
que só havia dois reais e trinta centavos que mal pagavam à bala que ele
usaria na minha cabeça se descobrisse quanto eu tinha.

Passei minha carteira em câmera lenta e ele acertou meu rosto em câmera
rápida. Ele fugiu com meus trocados e ficará eternamente humilhado por ter
se arriscado por tão pouco; assim como eu ficarei eternamente humilhado por
ter pedido carona no ônibus para voltar pra casa.

O orgulho doía mais que o meu rosto. Então, dentro do ônibus, ensaiei minha
vingança, imaginei os detalhes. Não adiantava correr atrás do ladrão que
roubara meus dois reais e trinta centavos; mas eu conhecia alguém que
conhecia outro alguém que tinha um amigo que vendia armas.

Precisava me armar. Precisava me defender. O próximo ladrão que tentasse
roubar esse neguinho franzino teria uma grande surpresa.

Visualizei a cena, atuei como Charles Bronson e Clint Eastwood; o ladrão
sentiria o gosto do meu Dirty Harry. Ri sozinho, como um desses gênios
diabólicos dos desenhos animados que querem conquistar o mundo; mas a
historia foi mudando e contra a minha vontade, cenas novas foram surgindo.
Virei uma marionete, um ator nas mãos de um roteirista moralista e
implacável que escrevera um final alternativo para a minha historia de
vingança. O meu justiceiro caiu no chão e o ladrão ganhou a batalha. Não
morri (mocinho não morre), mas a arma continuou na mão do ladrão, fazendo
vitimas que não tiveram a mesma sorte que o mocinho; que de certa forma,
passou a ser tão responsável quanto o bandido, pelo sofrimento ou pela morte
do outro.

A verdade é que não sou um justiceiro e nem farei parte desse ciclo. Sei que
a arma só me fará mais vitima do que já sou. A carteira se foi, mas eu
continuo vivo e isso é o que basta. Tenho o meu segundo de vida que pedi a
Deus e não vou desperdiçá-lo ajudando a colocar mais uma arma na rua que
cedo ou tarde acabará nas mãos de um criminoso.

Foi pensando nisso que me dei conta algo que havia esquecido: eu ja estava
tendo a minha vinganca. Lembrei novamente do ladrão e subitamente meu rosto
sério e abatido foi dando lugar a um semblante bem descontraído. A cara de
criança emburrada que perdeu um brinquedinho foi dando lugar a um sorriso
peralta.

Quem me visse no ônibus jamais imaginaria que eu tinha acabado de ser
roubado, pois até chegar em casa, fui dando gargalhadas ao imaginar a cara
do ladrão olhando a carteira roubada com meus dois reais e trinta centavos.


Frank

29 de Setembro de 2005

2 comentários:

eloise1006 disse...

O Frank é assim, um sonho pra mim...o sonho do amor sem fronteiras, sem medo de ser feliz, e vive assim, desarmado...Um intelecto que passa pelo coração é inteligência, sabedoria. Beijocas, querido amigo/irmão!!!

Anônimo disse...

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